terça-feira, outubro 19

JORNAIS DE TODO O MUNDO, APARVALHAI-VOS. Há dias em que os jornais desta terra têm tantas coisa para ler como qualquer número dourado da Vanity Fair. Hoje foi o Guardian. Mesmo para quem está farto de guerra, como eu, compensou esforçar o sobrolho e ler mais uma excelente crónica do pró-David Aaronovitch (o homem já foi premiado por defender tão bem a guerra num jornal de esquerda); e o comentário inteligente do contra-Arthur Schlessinger (ex-conselheiro do presidente Kennedy e autor do livro Vital Center, onde Fukuyama foi buscar quase tudo menos a referência bibliográfica). Para terminar, mais uma sugestão de leitura, mas esta com dois dias de atraso: o editorial em que o New Yor Times assume a sua posição nas eleições presidenciais. «...we enthusiastically endorse John Kerry for president», Dia 17 de Outubro. Mesmo sem contraditório, é muito bonito.
OLÁ. Não faço ideia se devo anunciar o regresso à linha do Estrangeirados, em ritmo normal, porque tenho dúvidas quanto à nossa disponibilidade e o vosso interesse. De qualquer modo, até porque já é Inverno, tentar não custa. Além de que me seria completamente impossível deixar que o Estrangeirados morrese com um último post preenchido por uma citação do super-reitor da Católica. Isto é um blogue sério e decoroso. Não deixaríamos nunca que o fanatismo e a ignorância prevalecessem no nosso espaço. A todos, um abraço de boas vindas.

segunda-feira, outubro 4

"SOU UM DEFENSOR DA INTERVENÇAO DOS PODERES PÚBLICOS PARA MAIOR REGULAÇAO DOS LOCAIS DE DIVERSAO" Nos meus tempos de UCP, comentava-se que Herman José se tinha inspirado no reitor para criar o Diácono Remédios.
SÓCRATES disse que o PS "está presente e está de volta" e quer liderar a oposição. Confesso que não sou muito bom a decifrar metáforas, mas vieram-me à ideia umas imagens dos Jogos Paralímpicos de Atenas, quando Oscar Pistorius, um corredor sul-africano com próteses nas pernas, arrancou depois dos seus concorrentes na corrida dos 200 metros e conseguiu ganhar na recta final. Venha daí.

sexta-feira, outubro 1

TURQUIA Hoje tivémos a confirmação: Nicolas Sarkozy vai ser presidente da República em França, mas não já em 2007. Como é que chegámos a esta conclusão? Ora, foi o voluntarioso ministro das Finanças, futuro presidente do partido da maioria parlamentar (UMP) e potencial candidato à presidência da República a avançar no passado fim-de-semana com a ideia luminosa de realizar um referendo em França sobre a entrada da Turquia na União Europeia. E eis que Jacques Chirac declara oficialmente hoje, em Estrasburgo, que "os franceses terão uma palavra a dizer" sobre este assunto, acrescentando que a questão só se colocará dentro de "dez a quinze anos". Sendo os mandatos presidenciais de cinco anos, será que podemos esperar mais um quinquénio de Chirac no Eliseu e uma passagem de testemuno em 2012? Ou o presidente já está a antever uma vitória dos socialistas nos próximos tempos?
KERRY vs. BUSH Bastou um pouco de dramatismo dado pelas sondagens dos últimos dias, que atribuíam uma vantagem a George Bush na corrida para a presidência dos EUA, para o primeiro debate televisivo organizado ter ganho contornos espectaculares e decisivos para o futuro de John Kerry. Os olhos do mundo inteiro concentraram-se na Universidade de Miami. Felizmente, como num bom western, o cowboy conseguiu levantar-se e dar um soco no proprietário que quer à força possuir as terras todas da planície. Este nada mais pôde fazer senão montar no cavalo e voltar ao seu rancho. Aguardam-se novos confrontos. E nós aqui a ver.

segunda-feira, setembro 27

LISBOA vs. PARIS O Rui resolveu abrir uma pequena polémica sobre Paris. Permitam-me dar uma achega a favor do André sobre o que Paris tem: um presidente de Câmara que consulta os seus habitantes sobre as prioridades e os grandes projectos para a cidade, que apoia a realização de sessões de cinema para surdos e cegos, que aluga táxis para deficientes físicos, que resiste às pressões dos automobilistas e insiste nas ciclovias, que fez de uma praia artificial em Paris um sucesso copiado em vários países, que continua a abrir o Hôtel de Ville durante a Nuit Blanche, apesar de ter sido esfaqueado logo na primeira edição, e que accionou um processo contra o presidente da República por causa das despesas ilegais que este (e a sua mulher) fez ocupava quando as mesmas funções... O resto, meu caro Rui, é paisagem.

sexta-feira, setembro 24

TODA A VERDADE Neste momento em que escrevo, a RTP está em directo a espreitar por uma janela da garagem do edifício da Polícia Judiciária em Portimão para ver se os principais suspeitos chegaram às instalações. Pediu licença, afastou os mirones que esperavam para apupar a mãe e o tio da criança alegadamente morta e meteu a objectiva no "buraco da fechadura". Se a RTP anda assim, nem quero saber o que terá feito a TVI.

sábado, setembro 11

11S Fez ontem três anos que me instalei em Paris. Esta data seria provavelmente esquecida, não fosse o que se passou no dia seguinte. Como estava mais preocupado em encontrar trabalho e ainda andava a descobrir a cidade, não me apercebi de nada de anormal durante todo o dia. Não passei em frente a lojas com multidões a ver as televisões, não andei em autocarros onde o assunto fosse discutido, não tinha televisão e a rádio estava permanentemente ligada na TSF, mas a francesa, que só interrompe o jazz à hora certa para dar umas notícias pouco desenvolvidas. E assim passei um dia completamente alienado do "acontecimento que mudou o mundo". Ainda tenho algumas edições de jornais de 12 de Setembro que me apressei a comprar, mas será que é possível compreender o 11 de Setembro sem ver as imagens dos aviões a entrarem pelas torres dentro, das pessoas chocadas a chorar, das torres a caír e da imensa poeira que se abateu depois? Este Verão ouvi o relato de um nova-iorquino que assistiu a tudo do telhado do seu prédio, onde nos sentámos num fim de tarde a beber umas cervejas. Sem puxarmos pelo assunto, ele apontou-nos o lugar vazio onde deveria estar o World Trade Center. Contou como alguém o acordou com o telefone, como uma pequena multidão de vizinhos e conhecidos se juntou no telhado para ver o que se passava e como todos se afundaram em lágrimas quando as torres caíram. E lembrou ainda o pânico quase infantil causado por outro avião - certamente uma aeronave militar ou de socorro - que sobrevoava a cidade, fazendo um monte de adultos gritarem de mãos no ar e correrem sem destino à volta do pátio. Esta podia ser perfeitamente uma cena de um filme cómico. Mas naquele momento não nos lembrámos de rir.

quinta-feira, setembro 2

OS JORNAIS E MICHAEL MOORE. Adoro o USA Today. Ou melhor, adoro o sucesso do USA Today. Foi o primeiro jornal do mundo (dentro do ranking dos melhores, pelo menos) a decidir que todas as páginas teriam cor e todas as secções infografias. Ainda hoje uma mão cheia de inúteis mentais acha que os produtos jornalísticos são tanto mais sérios quanto mais cinzentas forem as páginas. Mas adiante. Lembrei-me de vir aqui louvar o USA Today pela genial estratégia de pôr o Michael Moore a fazer a análise da Convenção Republicana. Pessoalmente, até acho que ninguém pode gostar verdadeiramente de Michael Moore. Ou se detesta ou se tolera. A escrita é pobre, os argumentos desproporcionados e mesmo os factos, apesar de verdadeiros, acabam distorcidos por tanta militância política. Mas é o homem do momento. Isso ninguém questiona. Pô-lo ali, na toca do lobo, sujeito a insultos que se converteram em notícia por todo o mundo, é um golpe de mestre. Nisto tudo, as crónicas são o menos. De qualquer forma, se quiserem ver, a última está aqui.

terça-feira, agosto 31

EXCITAÇÕES. É incrível como o tema do aborto, mais que qualquer outro, consegue despertar tanta falta de racionalismo e pragmatismo. Agora foi a história do barco. A maior parte das pessoas favoráveis à despenalização insiste em ignorar que perdeu um referendo e que a lei (bem como o sentido da mesma) está feita para condenar o aborto como um crime. É errada, hipócrita, repugnante? Pessoalmente não tenho dúvidas que sim. Mas foi aprovada pelo País em referendo e num referendo recente. Por isso, dizer que o ministro da Defesa fez «a maior afronta à democracia» por ter proibido a entrada do barco é completamente descabido. Para me convencer a mim, pessoalmente, nem precisavam de invocar leis marítimas. É mesmo a lei do aborto a única coisa que importa. Se é ilegal, é ilegal, não me venham com manhas de esperteza saloia para contornar resultados eleitorais. Isso sim é uma afronta à democracia.

terça-feira, agosto 24

ANTES DE IR DE FÉRIAS Aqui está uma aplicação interessante. Tenha-a sempre perto de si. Por falar em férias, esta semana vou estar à praia. Quando voltar faço o relatório sobre NY, porque esta avaria no computador estragou-me os planos. Até já.
CRETINICE Era o que faltava, sondagens a perguntar o que os portugueses "acham" da prestação dos atletas portugueses em Atenas. E não é que estes respondem?!
LANÇAMENTO DO DISCO Os computadores sabem ser ingratos nas piores alturas. O meu disco rígido morreu, com a sempre dramática perda de documentos, preferências, hábitos, favoritos, etc. Mas o pior foi quando perdi estupidamente a cópia mais recente dos contactos. Por isso, aproveito para pedir desculpas públicas se não escrever ou telefonar a alguém nos próximos tempos.

quinta-feira, agosto 19

NÚMERO 7 No início também achei ridícula a ideia de o Figo sair e depois voltar para jogar no próximo Mundial, se a selecção se qualificasse. Mas agora não me faz assim tanta impressão. Pior fizeram o Zidane e o Rui Costa, que fecharam a porta de vez. Se ainda lhe sobrarem pernas para ir à Alemanha, será bem vindo.

quarta-feira, agosto 18

EMIGRANTES Há muito tempo que mudou o perfil tradicional do português que luta lá fora pela vida e depois volta a Portugal para passar a terceira idade na vivenda que construiu na aldeia. Agora preferem passar uma confortável reforma no estrangeiro.

terça-feira, agosto 17

DURÃO, O VILÃO Os franceses estão chateados com José Manuel Barroso porque o comissário que enviaram para Bruxelas, Jacques Barrot, recebeu uma pasta, a dos Transportes, pouco significativa face à importância do país como na União Europeia. O editorial do Le Figaro de sábado, 14 de Agosto, começa por citar uma constatação do Financial Times: "A França tem uma pasta menos importante que a Lituânia". Para o editorialista, esta foi uma "humilhação política" e uma "desagradável surpresa". O Le Monde de terça-feira, 17 de Agosto, procura resposta para a questão: "Porque é que a influência francesa enfraqueceu em Bruxelas". A opinião geral é a de que França foi "sancionada", nas palavras do ex-MNE socialista Pierre Moscovici, pela arrogância usada muitas vezes no trato com as instituições europeias. E vários observadores notam uma falta de confiança no motor franco-alemão, acusado de contornar e baralhar as directivas comunitárias para gerir os assuntos internos, como foi o caso do défice público. A verdade é Jacques Chirac não se pode queixar senão de si mesmo: apoiou o belga Guy Verhofstadt na corrida à presidência da Comissão, aceitando por fim Barroso pela sua reconhecida francofonia. Menos talentos linguísticos tem Jacques Barrot, ex-lider parlamentar do partido chiraquista UMP, quem dizem que não dominar sequer a língua de Shakespeare. O presidente francês preferiu um boy para o lugar do que manter ex-chefe de gabinete de Jacques Delors, Pascal Lamy, figura bastante apreciada e a quem Barroso não teria coragem de fechar a porta no círculo liberal que os franceses agora o acusam de ter criado. Uma coisa é certa: foi preciso Durão ser importante para os jornais franceses deixarem de escrever Juan Manoel e coisas do género e aplicarem-se a colocar o acento no José.

quarta-feira, agosto 4

PASSEIOS Por falar em transportes, fiquei impressionado com a quantidade de deficientes motores que recorrem ao autocarro para se deslocarem em Nova Iorque. Por norma uso o autocarro para viajar dentro da cidade e posso afirmar que em pelo menos 40 viagens, 35 fi-las na companhia de pessoas em cadeiras de rodas. Além de todos os veículos poderem "ajoelhar-se" para facilitar a entrada a pessoas mais idosas ou com dificuldades de locomoção, possuem um elevador hidráulico que permite a subida das cadeiras de rodas e vários bancos que podem recolher-se para dar lugar a estas pessoas, que entram empurradas ou sozinhas, quando possuem um modelo eléctrico. Em Paris, apenas uma parte dos autocarros está preparada e em Lisboa, até há poucos anos, ainda se recorria ao sistema do autocarro especial. Eu posso compreender que a renovação da frota seja gradual e que isso implica um esforço financeiro e uma sensibilização dos responsáveis. Mas o que o caso de NY prova é que as pessoas não têm medo de sair para a rua, onde, pelos vistos, podem circular à vontade e em segurança. E não estou a falar apenas das chamadas "barreiras arquitectónicas" que dificultam o movimento das cadeiras de rodas. Portugal tem um problema especial com o qual, o mais cedo possível, terá de lidar: a calçada portuguesa.

À GRANDE E À FRANCESA (já foi o tempo...) Ao contrário do que se passava quando em meados de Julho deixei satisfeito uma Paris chuvosa, quando voltei no domingo estava calor. Um tempo veranil que apenas lamentei quando entrei no aeroporto no comboio com destino à cidade e a casa. Na segunda estação entraram dezenas de pessoas que tornaram ainda mais evidente a urgência em instalar ar condicionado neste meio de transporte. Aqui notei uma diferença importante com Nova Iorque, onde entrar para o autocarro ou metro é o mesmo que encontrar um oásis no deserto. A diferença é tal que há quem aconselhe - com exagero - um agasalho propositadamente para usar nos transportes e estabelecimentos, todos bem climatizados. Pelo contrário, a RATP (empresa que manda nos transportes urbanos parisientes) vela certamente para que os seus clientes e turistas não se constipem logo quando entram no país e na capital. Depois queixem-se da canícula.

segunda-feira, agosto 2

HI GUYS, HOW ARE YOU DOING TODAY? É com esta típica expressão canadiana que anuncio o regresso ao fim de três semanas de férias. Tenho muita coisa para contar e fotografias para mostrar, mas agora também tenho de trabalhar. Vão aparecendo por aqui. Até já. Vou voltar à rotina. E ainda bem.