quinta-feira, setembro 2

OS JORNAIS E MICHAEL MOORE. Adoro o USA Today. Ou melhor, adoro o sucesso do USA Today. Foi o primeiro jornal do mundo (dentro do ranking dos melhores, pelo menos) a decidir que todas as páginas teriam cor e todas as secções infografias. Ainda hoje uma mão cheia de inúteis mentais acha que os produtos jornalísticos são tanto mais sérios quanto mais cinzentas forem as páginas. Mas adiante. Lembrei-me de vir aqui louvar o USA Today pela genial estratégia de pôr o Michael Moore a fazer a análise da Convenção Republicana. Pessoalmente, até acho que ninguém pode gostar verdadeiramente de Michael Moore. Ou se detesta ou se tolera. A escrita é pobre, os argumentos desproporcionados e mesmo os factos, apesar de verdadeiros, acabam distorcidos por tanta militância política. Mas é o homem do momento. Isso ninguém questiona. Pô-lo ali, na toca do lobo, sujeito a insultos que se converteram em notícia por todo o mundo, é um golpe de mestre. Nisto tudo, as crónicas são o menos. De qualquer forma, se quiserem ver, a última está aqui.

terça-feira, agosto 31

EXCITAÇÕES. É incrível como o tema do aborto, mais que qualquer outro, consegue despertar tanta falta de racionalismo e pragmatismo. Agora foi a história do barco. A maior parte das pessoas favoráveis à despenalização insiste em ignorar que perdeu um referendo e que a lei (bem como o sentido da mesma) está feita para condenar o aborto como um crime. É errada, hipócrita, repugnante? Pessoalmente não tenho dúvidas que sim. Mas foi aprovada pelo País em referendo e num referendo recente. Por isso, dizer que o ministro da Defesa fez «a maior afronta à democracia» por ter proibido a entrada do barco é completamente descabido. Para me convencer a mim, pessoalmente, nem precisavam de invocar leis marítimas. É mesmo a lei do aborto a única coisa que importa. Se é ilegal, é ilegal, não me venham com manhas de esperteza saloia para contornar resultados eleitorais. Isso sim é uma afronta à democracia.

terça-feira, agosto 24

ANTES DE IR DE FÉRIAS Aqui está uma aplicação interessante. Tenha-a sempre perto de si. Por falar em férias, esta semana vou estar à praia. Quando voltar faço o relatório sobre NY, porque esta avaria no computador estragou-me os planos. Até já.
CRETINICE Era o que faltava, sondagens a perguntar o que os portugueses "acham" da prestação dos atletas portugueses em Atenas. E não é que estes respondem?!
LANÇAMENTO DO DISCO Os computadores sabem ser ingratos nas piores alturas. O meu disco rígido morreu, com a sempre dramática perda de documentos, preferências, hábitos, favoritos, etc. Mas o pior foi quando perdi estupidamente a cópia mais recente dos contactos. Por isso, aproveito para pedir desculpas públicas se não escrever ou telefonar a alguém nos próximos tempos.

quinta-feira, agosto 19

NÚMERO 7 No início também achei ridícula a ideia de o Figo sair e depois voltar para jogar no próximo Mundial, se a selecção se qualificasse. Mas agora não me faz assim tanta impressão. Pior fizeram o Zidane e o Rui Costa, que fecharam a porta de vez. Se ainda lhe sobrarem pernas para ir à Alemanha, será bem vindo.

quarta-feira, agosto 18

EMIGRANTES Há muito tempo que mudou o perfil tradicional do português que luta lá fora pela vida e depois volta a Portugal para passar a terceira idade na vivenda que construiu na aldeia. Agora preferem passar uma confortável reforma no estrangeiro.

terça-feira, agosto 17

DURÃO, O VILÃO Os franceses estão chateados com José Manuel Barroso porque o comissário que enviaram para Bruxelas, Jacques Barrot, recebeu uma pasta, a dos Transportes, pouco significativa face à importância do país como na União Europeia. O editorial do Le Figaro de sábado, 14 de Agosto, começa por citar uma constatação do Financial Times: "A França tem uma pasta menos importante que a Lituânia". Para o editorialista, esta foi uma "humilhação política" e uma "desagradável surpresa". O Le Monde de terça-feira, 17 de Agosto, procura resposta para a questão: "Porque é que a influência francesa enfraqueceu em Bruxelas". A opinião geral é a de que França foi "sancionada", nas palavras do ex-MNE socialista Pierre Moscovici, pela arrogância usada muitas vezes no trato com as instituições europeias. E vários observadores notam uma falta de confiança no motor franco-alemão, acusado de contornar e baralhar as directivas comunitárias para gerir os assuntos internos, como foi o caso do défice público. A verdade é Jacques Chirac não se pode queixar senão de si mesmo: apoiou o belga Guy Verhofstadt na corrida à presidência da Comissão, aceitando por fim Barroso pela sua reconhecida francofonia. Menos talentos linguísticos tem Jacques Barrot, ex-lider parlamentar do partido chiraquista UMP, quem dizem que não dominar sequer a língua de Shakespeare. O presidente francês preferiu um boy para o lugar do que manter ex-chefe de gabinete de Jacques Delors, Pascal Lamy, figura bastante apreciada e a quem Barroso não teria coragem de fechar a porta no círculo liberal que os franceses agora o acusam de ter criado. Uma coisa é certa: foi preciso Durão ser importante para os jornais franceses deixarem de escrever Juan Manoel e coisas do género e aplicarem-se a colocar o acento no José.

quarta-feira, agosto 4

PASSEIOS Por falar em transportes, fiquei impressionado com a quantidade de deficientes motores que recorrem ao autocarro para se deslocarem em Nova Iorque. Por norma uso o autocarro para viajar dentro da cidade e posso afirmar que em pelo menos 40 viagens, 35 fi-las na companhia de pessoas em cadeiras de rodas. Além de todos os veículos poderem "ajoelhar-se" para facilitar a entrada a pessoas mais idosas ou com dificuldades de locomoção, possuem um elevador hidráulico que permite a subida das cadeiras de rodas e vários bancos que podem recolher-se para dar lugar a estas pessoas, que entram empurradas ou sozinhas, quando possuem um modelo eléctrico. Em Paris, apenas uma parte dos autocarros está preparada e em Lisboa, até há poucos anos, ainda se recorria ao sistema do autocarro especial. Eu posso compreender que a renovação da frota seja gradual e que isso implica um esforço financeiro e uma sensibilização dos responsáveis. Mas o que o caso de NY prova é que as pessoas não têm medo de sair para a rua, onde, pelos vistos, podem circular à vontade e em segurança. E não estou a falar apenas das chamadas "barreiras arquitectónicas" que dificultam o movimento das cadeiras de rodas. Portugal tem um problema especial com o qual, o mais cedo possível, terá de lidar: a calçada portuguesa.

À GRANDE E À FRANCESA (já foi o tempo...) Ao contrário do que se passava quando em meados de Julho deixei satisfeito uma Paris chuvosa, quando voltei no domingo estava calor. Um tempo veranil que apenas lamentei quando entrei no aeroporto no comboio com destino à cidade e a casa. Na segunda estação entraram dezenas de pessoas que tornaram ainda mais evidente a urgência em instalar ar condicionado neste meio de transporte. Aqui notei uma diferença importante com Nova Iorque, onde entrar para o autocarro ou metro é o mesmo que encontrar um oásis no deserto. A diferença é tal que há quem aconselhe - com exagero - um agasalho propositadamente para usar nos transportes e estabelecimentos, todos bem climatizados. Pelo contrário, a RATP (empresa que manda nos transportes urbanos parisientes) vela certamente para que os seus clientes e turistas não se constipem logo quando entram no país e na capital. Depois queixem-se da canícula.

segunda-feira, agosto 2

HI GUYS, HOW ARE YOU DOING TODAY? É com esta típica expressão canadiana que anuncio o regresso ao fim de três semanas de férias. Tenho muita coisa para contar e fotografias para mostrar, mas agora também tenho de trabalhar. Vão aparecendo por aqui. Até já. Vou voltar à rotina. E ainda bem.

terça-feira, julho 27

UMA (VERDADEIRA) CIDADE UNIVERSITARIA Depois de uns dias espectaculares em Nova Iorque, dos quais falarei mais tarde e com mais tempo, estou ha quase uma semana em Calgary (Estado de Alberta, a 1000 km este de Vancouver), uma cidade com historia e peso economico no Canada mas sem qualquer interesse turistico. Mais exactamente, estou alojado num campus universitario – por razoes que nao interessam aqui aprofundar. Desde posto dos correios, livraria, varios restaurantes comerciais, alem da cantina (que nao recomendo) e inumeros servicos de apoio e entretenimento, tem umas condicoes invejaveis para fazer desporto, com campos de basquetebol, piscina, ginasio de fitness, caiaques para andar no rio, bicicletas de montanha… A somar a tudo isto, esta situado num luxuriante espaco verde onde as residencias universitarias oferecem desde os tradicionais dormitorios onde os estudantes partilham os quartos e os chuveiros aos apartamentos com varios quartos, estudios individuais e ate suites! Imaginem quantos anos os veteranos de Coimbra iriam ficar por aqui… PS: E claro que eu podia esforcar-me e procurar os acentos neste teclado, mas assim fica mais credivel e acrescenta um toque exotico.

sexta-feira, julho 23

NOTAS POLÍTICAS. (Desculpem, mas apetece-me)

1. Na senda dos Verdes, que oportuna e inteligentemente questionaram a legitimidade de Nobre Guedes para ser ministro, Fernando Louçã tentou hoje criar um facto político por ter descoberto que um secretário de Estado veio directamente do mundo privado para o Governo. Mas fez mal. «Já tínhamos um ministro do Grupo Mello, agora temos um secretário de Estado da Associação Nacional de Farmácias». E então? Teremos de ter governantes vindos do desemprego? Têm de ser todos académicos? Ou terão de ser políticos carreiristas que nunca provaram nada no mundo real? Não tem cabimento. O mais engraçado é que até o líder parlamentar do PCP, velho amigo da «democracia» da Coreia do Norte, se lembrou de dizer que o que importa é «a ética política». Como é evidente.

 2. Tenho duas ideias sobre Durão Barroso com que, aparentemente, os nossos opinion makers não concordam. Uma menor, relativa ao nome pessoal; outra mais importante, relacionada com o seu papel no desempenho do novo governo. Sobre o nome, espanta-me que a nossa comunicação social (alguma, pelo menos) se sinta obrigada a aceitar a nova designação que Durão escolheu para si próprio. Que os jornalistas de outros países aceitem o pedido não vejo problema de lesa-majestade – só agora é que irão citar o seu nome, de qualquer forma, por isso não tinham razão para fazer o contrário. Mas em Portugal Durão é Durão. Não é o senhor Barroso. Respeitar a audiência significa facilitar-lhe a informação. Neste caso, significa mandar às ortigas o capricho do Sr. Barroso.
Quanto à sua eleição para a presidência da Comissão acho, como a maioria dos portugueses (para usar a técnica de generalização inventada pela família Soares), que é um orgulho para o País. Mas a sua decisão, quer queiram os seus apoiantes quer não, tem muito mais de concretização pessoal do que de abnegação. Em nome da imagem do país, do projecto europeu, ou do que quer que invoquem. Por isso mesmo, o sucesso ou desvario do Executivo de Santana deve ser assacado, em primeiríssimo lugar, a Durão Barroso. Não esqueçamos: foi ele que nos deu este Governo.

3. José Sócrates não podia ter mais sorte. Não só vai receber a liderança do PS quando o Governo é o que é, como dentro do seu partido todos os habituais roedores de calcanhares resolveram cavar a sua própria sepultura e dar de bandeja os trunfos com que lhe poderiam estragar a carreira nos próximos meses\anos. João Soares e Manuel Alegre, mais os seus habituais compagnons de route, resolveram subir ao púlpito e gritar 25 de Abril Sempre!. «Estive nas batalhas mais complicadas», lembrou Soares Jr., no tom épico com que se imagina a conquistar Constantinopla; «toda a minha vida tem sido um combate desigual», proclamou com idêntica solenidade o poeta Alegre, depois de muitas horas de conversas com o Bloco de Leste remanescente do PS. O debate será clarificador, não há dúvida, mas para os portugueses perceberem o nível de insanidade destes senhores.

 4. Ao lado de Manuel Alegre, na conferência de imprensa, só uma pessoa se sentou: Maria de Belém. Não, não foi por nostalgia pela velha esquerda de punho fechado. Foi simplesmente porque o seu ódio a António Guterres é cego. E como foi Sócrates quem uma vez lhe lembrou, olhos nos olhos, que Belém «não seria ninguém sem o engenheiro Guterres», o ódio ganhou ramificações.

5. A mudança de pasta de Teresa Caeiro não tem muitas interpretações, só tem uma. Vou tentar adivinhar: Portas queria-a na Defesa, mas não tinha o «sim» definitivo de Santana. Num golpe de esperteza saloia – que até é de estranhar – anunciou o seu nome para consumar o facto. Lopes, como qualquer rookie,  não resistiu à tentação de se evidenciar pela lei do mais forte. Perdeu junto da opinião pública, que assistiu à primeira prova do desvario, mas ganhou – sem querer, parece-me – junto de quem menos esperava: Sarmento e Arnaut perceberam que não vale a pena fazer braços de ferro... porque o homem é louco.

quinta-feira, julho 22

MARCELO A DVD JÁ! Tenho assistido a várias discussões sobre as colecções dos Monty Python, do West Wing ou dos Friends. Sei que há uma falange enorme de quem espera ansiosamente pela compilação de Seinfeld em DVD. Mas eu, perdoem-me a insanidade, dou tudo para daqui a uns anos, quando tiver o privilégio de passar um Verão em Portugal, estar a discutir alegremente com outro fanático as gravações dos momentos de maior brilho da TVI. A última intervenção do professor, que só agora ficou disponível na Net, é um deles. A corrosão política em estado puro, genial. Só por isto, pela inspiração que o momento dá a Marcelo, já valeu a pena termos novo governo.
GILBERTO MADAÍL DESPROMOVIDO. Autor do feito: José Romão. O seleccionador da equipa olímpica conseguiu hoje ultrapassar o ilustre presidente da Federação de Futebol na intensa disputa pelo título de representante desportivo mais fajuto no panorama nacional. Apesar de um empate no capítulo Apresentação (ambos escolhem fato Maconde e pêra facial), Romão é quase imbatível no capítulo Discurso. Hoje, na primeira de muitas intervenções públicas com que certamente seremos brindados nas próximas semanas, o seleccionador das esperanças (!) já deu um ar da sua graça. A escolha dos jogadores, disse, «é o reconhecimento da sua categoria enquanto jogadores profissionais e também o reconhecimento de que são atletas de alto nível do futebol português e de valor indesmentível». Mas porquê estes, insistiu o jornalista que entrevistou o respeitável míster. «Têm dentro deles sentido de grande polivalência», iluminou o entrevistado. Para terminar, deixo-vos a frase que traduz as ambições do nosso líder: «O que é sensato é que nós definirmos como primeiro passo qualificarmos, passar o nosso grupo. E depois, numa situação de grande ambição que levamos tentar chegar longe. E tentar chegar longe é que a nossa selecção se apresente sempre com índices de motivação altíssimos, com a consciência que tem uma qualidade proporcional aos outros».

domingo, julho 11

VACANCES Três semanas sem computador, jornais, rádio, TV e internet. Há pessoas que gostam de tirar férias da civilização, mas eu não sou uma delas. Vou estar a roer-me para saber quem estará no governo Santana Lopes, quais as movimentações no PS, as últimas contratações do FCP. Mas alguém que vai pela primeira vez a NY tem direito a queixar-se? Vou tentar mandar um postal de vez em quando. E farei um relatório mais extenso na chegada. À bientôt.

sábado, julho 10

SAMPAIO Às 22h15, Paris parou para ouvir o Presidente. Nem um carro, nem um metrop, nem uma bicicleta. Para quê?
CRISE Por este caminho, Sampaio vai morrer pobre e sozinho.

quinta-feira, julho 8

JUSTIÇA Advogados e magistrados franceses manifestam-se hoje em frente às prisões contra a sobrelotação das prisões, onde existem mais 10.000 detidos do que os lugares previstos. Os penitenciários preparam um abaixo-assinado pela melhoria de condições de trabalho nos tribunais.

quarta-feira, julho 7

MICHAEL MOORE Estreia hoje nas salas de cinema francesas Fahrenheit 9/11, o filme que recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes e é recebido hoje com honras de primeira página no Libération. Colocando de parte a assumida propaganda anti-Bush, para a qual o público já está previamente avisado, o seu mérito é de poder reforçar a tendência que se tem verificado nos últimos anos de documentários com um sucesso comercial significativo em França, como Les Glaneurs et la Glaneuse, de Agnès Varda, Être et avoir, de Nicolas Philibert, "Super Size Me", de Morgan Spurlock, 10e chambre, instants d'audience, de Raymond Depardon. Uma alternativa ao puro - e tantas vezes enfadonho - entertainement dos filmes de ficção.