terça-feira, março 16

ADIOS, AMIGOS* Tem piada como a eleição de um socialista serve os interesses da direita francesa tanto em relação ao Iraque como nas questões europeias, onde o novo primeiro-ministro espanhol pode desbloquear o impasse na Constituição Europeia. Paris e Berlim precisam de aliados fortes, pois com Londres é difícil de contar. Por isso, eu até percebo que tenham sido expeditos os cumprimentos ao vitorioso e as manifestações de vontade em cooperar. Mas chocou-me que, no momento em que a direita europeia registou a primeira grande derrota depois da era da luta contra o terrorismo, tenham sido escassas ou inexistentes as palavras de solidariedade a favor de um dos seus modelos, em especial do primeiro-ministro, Jean-Pierre Raffarin. Apenas Jacques Chirac telefonou a José-Maria Aznar para lhe assegurar a sua amizade. Mas nós e Alain Juppé sabemos o que isso pode custar.

*Nome do útimo álbum dos Ramones

OLÁ. Duas semanitas arredado desta casa e - quando começava a pensar que já não me fazia falta - arrebato-me de amores e saudades. Destes dias longe (dos quais ainda não estou totalmente livre) várias vezes me mordi por não poder vir aqui pensar alto. Como não poderei recuperar o tempo perdido, limito-me agora a compensar a ausência de discurso sobre os episódios de Espanha, recomendando vivamente as palavras do André. Subscrevo linha por linha. A mentira, na política, não se tolera. E Aznar, como Bush e Blair, mentiu deliberadamente. E como Bush e Blair, mentiu sobre políticas de sangue, de guerra, de atentados. Não escondeu uma amante debaixo da secretária, nem fingiu que pagou impostos atrasados. Fez o abominável. Manipulou o que não pode ser manipulado: o sofrimento da morte. Só por isso (esperneiem o que quiserem os meus queridos amigos que me querem convencer de uma ingenuidade que não existe), merece cair na desgraça.
LONDRES PÓS 11-M.

sexta-feira, março 12

AS PISTAS APONTAM PARA O MESMO

Gallego & Rey no El Mundo

quinta-feira, março 11

DE ROMA A MADRID Não sei se já chegou a Portugal, mas recentemente vi um filme italiano, Buongiorno, Notte, sobre o sequestro e execução pelas Brigadas Vermelhas do líder da Democracia Cristã, Aldo Moro. E, embora seja um cenário fantasista, adaptado do livro de um dos membros, Anna Laura Braghetti, o filme de Marco Bellochio dá uma imagem de como a luta por uma causa (independentemente da sua legitimidade) pode degenerar. Damos por nós a abanar a cabeça e a interrogar se os responsáveis ainda pensam que valeu a pena.

ATENTADO Quando liguei a televisão no principal canal de notícias francês hoje de manhã, estavam dois mecos a discutir a orientação escolar. Finalmente já puseram uns especialistas a comentar as imagens e as consequências políticas e um enviado especial a fazer o relato. Os directos aqui para estas bandas são escassos

quinta-feira, março 4

OS DESEJADOS Em França, é Lionel Jospin, em Portugal é António Guterres. Dois antigos primeiros-ministros socialistas, auto-exilados da política, começam progressivamente a dar a cara para ajudar os respectivos partidos nas eleições mais próximas (regionais em França, europeias em Portugal). Vou adorar ver os palcos de campanha cheios de fumo e eles a aparecerem, montados em cavalos brancos, queixo levantado e luzes nos olhos, ao som de uma música heróica...

terça-feira, março 2

QUEREM MATAR A TRADIÇAO Para repôr a actualidade e passar a informação ao espectador, Mel Gibson já encontrou distribuidor (link efémero) para La passion du Christ, Tarak Ben Ammar, que anunciou a estréia para a Páscoa. Eu pergunto: e o Quo Vadis?.

O PROGRAMA Só para que fique registado, em França também temos um António Guterres. Ou é em Portugal que existe um Lionel Jospin? É um assunto que vamos aprofundar nos próximos dias. Na forja há ainda um texto sobre os transportes públicos, a pedido especial. E não perca a rubrica de culinária à quarta-feira, a crónica de puericultura à quinta e a agenda de espectáculos na sexta-feira.
ALÔ? Já estou no ar?

segunda-feira, março 1

EM TRANSITO. Poiso novo, problemas novos. Entre outras coisas, foi-se a Internet. Para me corresponder com Paris, durante os proximos dias, terei de me deslocar a um desses cafes mixurucas, onde cada hora ligado ao mundo custa a modica quantia de seis euros. E ainda para mais, dao-me computadores analfabetos. Assim como este, sem acentos nem cedilhas. Perdoe-me, caro leitor, o embaraco. Prometo adoptar o modelo mexiano: daqui a uma semana posto quinze prosas. Ate la, segue a emissao francesa. Abracos (com cedilha) e beijinhos (acentuados).

domingo, fevereiro 29

SOBRE A INUTILIDADE. Fiquei agora a saber, por um título do Expresso, que o nosso Presidente da República está «contra a Sida». Quero aqui declarar, perante esta revelação surpreendente e corajosa, que também eu sou contra a Sida. Para a semana, num exclusivo bombástico, o Expresso poderá revelar que o PR está «contra a pobreza». Começarei a pensar no assunto desde já.
O MEU HERÓI MOURINHO. O principal articulista de desporto do Daily Telegraph dedicou ontem uma prosa inteira ao desempenho do melhor treinador português da História. Dizia o senhor Pinter que Joé Mourinho tinha adoptado uma estratégia muito «arriscada». Não no campo, onde até he concedia alguns méritos (poucos), mas no discurso. Pinter acha que Mourinho foi pouco audaz ao responder às críticas de Alex Ferguson, sobretudo quando insinuou que os seus atletas não se empenham o suficiente e que ele próprio, como técnico do clube mais rico do mundo, não sabe gastar o dinheiro das contratações. Isto foi muito arriscado, na perspectiva do ilustre brit, porque só servirá para espicaçar treinador, jogadores e adeptos do Manchester United quando o Porto vier jogar a Inglaterra. Para chegar a esta interpretação (bastante partilhada por estas terras) é preciso partir do pressuposto que Mourinho está encolhido no orgulho de uma vitória acidental e conseguida a custo de muita sorte. E que agora espera que o Manchester seja outra vez «apanhado de surpresa», mas no seu campo. Muito pelo contrário, digo eu, o que Mourinho está a fazer é a lutar pelo jogo justo. A esforçar-se para que os seus rivais na eliminatória não sejam apanhados de surpresa. «Fiquem alertados, meus senhores, que nós somos uma equipa tão boa ou melhor que a vossa», dirá ele. E os outros, se quiserem, que acreditem. Esperemos que não. Esperemos que, como os portugueses, fiquem a rir e a pensar que tudo não passa de arrogância naif. Seria bom sinal.

sexta-feira, fevereiro 27

JÁ TEMOS PROBLEMAS SUFICIENTES COM ISRAEL Em França, ainda não existe distribuidor para o filme de Mel Gibson, "The passion of the Christ".


Mike Lester no Rome news Tribune (EUA)

quarta-feira, fevereiro 25

FCP 2 - MAN U - 1 "O Estádio do Dragão hoje é o purgatório para os Diabos Vermelhos" - relato na RDP.
METAM-SE NA VOSSA VIDA. Disse-me o pai de um amigo, um dia, num encontro ocasional que serviu para conselhos de vida, que «o melhor a fazer» - assim, lato sensu - é definir um objectivo de longo prazo e ir cumprindo as suas partes. Para dar sustento às palavras, citou o proverbial Séneca Nenhum vento sopra a favor de quem não sabe para onde ir. Acreditei. E ainda hoje, quiçá por força de uma costela conservadora, acredito que vivem melhor os que sabem aquilo que procuram. O pior, aprendi depois, é o caminho que levamos para cumprir as partes. Aqui, a bem do bem-estar, convém ser mais liberal. Não podemos correr o risco da indecisão - mudando constantemente ou constantemente adiando a mudança -, nem tão pouco o da negação - ignorando o que nos faz ignorantes. Pensando assim, creio (espero, anseio), mudamos na hora certa. E fazemo-lo num minuto. Por mais que custe. Aos outros, claro.
«Então e aquele projecto de vida?»
«Mudou».
«Desististe?»
«Não, troquei»
Escusado será dizer que mudei, troquei um caminho. E que uma parte do cérebro resolveu passar isto a escrito para sossegar a outra. Agora vou deitá-las juntas e esperar que a reconciliação na cama tenha o efeito que se conhece. Até amanhã.

terça-feira, fevereiro 24

GACA E FARCO Aqui o camarada está maravilhado com a "fraternidade emigrante", onde "Porto" e "Lisboa" convivem alegremente na mesma rua. Quando cá vieres dou-te peixe frito para aprenderes. E cá em casa bebe-se Sagres preta.
PORTUGAL NO CORACHOM Vi apenas uns minutos da emissão de aniversário do "Portugal no Coração" gravada aqui em Paris, mas pairava um tom paternalista, de "viémos festejar com o coitado do emigrante que está tão longe da sua terra que tanto ama e anseia". Mas desta vez foram generosos. Em vez do habitual chouricinho, mandaram presuntos e um salpicão.
HIPOCRISIA. A todos aqueles que, como eu, acham que o senhor Gilligan foi condenado publicamente por um crime que pura e simplesmente não existe - no jornalismo, pelo menos -, recomendo vivamente a leitura deste artigo. O texto e as adendas. É tudo genial.

segunda-feira, fevereiro 23

FACA E GARFO. Aqui se define a fronteira entre as duas capitais de quem vos escreve, caro leitor. Enquanto ele, com soberba gastronómica, desdenha as riquezas da terra natal; eu, degredado no Tarrafal do guardanapo, quase salivo de pensar no que ele escorraça. Mas curioso foi o sentido de oportunidade. Precisamente quando acabo de conhecer o «Lisboa», supermercado, justamente à frente do «Porto», snack-bar. Ali em Nothing Hill, onde nunca imaginei. Comecei pelo Norte, como sempre, para o cafézinho e o pastel de nata. «Espere, não tenho aqui nada. Tenho de ir levantar»; «Deixe lá isso homem! Não vai deixar de comer porque não tem dinheiro». E de repente estou rendido e integrado na fraternidade emigrante. Depois enchi os sacos. Depois de abastecer a carteira, claro, que a Sul não há fiado. Um Casa de Santar reserva razoável, quatro latas de feijão preto, um chouriço bem apessoado, caldo verde congelado e quatro bocks já geladas. Paguei com gosto. Em libras, mas com gosto.
Tu foste encontrar o chévre e o confit de canard, dizes. Eu deixei-os em casa e vim atrás dos «Lisboas». Para já, vão-me divertindo.