domingo, fevereiro 29

SOBRE A INUTILIDADE. Fiquei agora a saber, por um título do Expresso, que o nosso Presidente da República está «contra a Sida». Quero aqui declarar, perante esta revelação surpreendente e corajosa, que também eu sou contra a Sida. Para a semana, num exclusivo bombástico, o Expresso poderá revelar que o PR está «contra a pobreza». Começarei a pensar no assunto desde já.
O MEU HERÓI MOURINHO. O principal articulista de desporto do Daily Telegraph dedicou ontem uma prosa inteira ao desempenho do melhor treinador português da História. Dizia o senhor Pinter que Joé Mourinho tinha adoptado uma estratégia muito «arriscada». Não no campo, onde até he concedia alguns méritos (poucos), mas no discurso. Pinter acha que Mourinho foi pouco audaz ao responder às críticas de Alex Ferguson, sobretudo quando insinuou que os seus atletas não se empenham o suficiente e que ele próprio, como técnico do clube mais rico do mundo, não sabe gastar o dinheiro das contratações. Isto foi muito arriscado, na perspectiva do ilustre brit, porque só servirá para espicaçar treinador, jogadores e adeptos do Manchester United quando o Porto vier jogar a Inglaterra. Para chegar a esta interpretação (bastante partilhada por estas terras) é preciso partir do pressuposto que Mourinho está encolhido no orgulho de uma vitória acidental e conseguida a custo de muita sorte. E que agora espera que o Manchester seja outra vez «apanhado de surpresa», mas no seu campo. Muito pelo contrário, digo eu, o que Mourinho está a fazer é a lutar pelo jogo justo. A esforçar-se para que os seus rivais na eliminatória não sejam apanhados de surpresa. «Fiquem alertados, meus senhores, que nós somos uma equipa tão boa ou melhor que a vossa», dirá ele. E os outros, se quiserem, que acreditem. Esperemos que não. Esperemos que, como os portugueses, fiquem a rir e a pensar que tudo não passa de arrogância naif. Seria bom sinal.

sexta-feira, fevereiro 27

JÁ TEMOS PROBLEMAS SUFICIENTES COM ISRAEL Em França, ainda não existe distribuidor para o filme de Mel Gibson, "The passion of the Christ".


Mike Lester no Rome news Tribune (EUA)

quarta-feira, fevereiro 25

FCP 2 - MAN U - 1 "O Estádio do Dragão hoje é o purgatório para os Diabos Vermelhos" - relato na RDP.
METAM-SE NA VOSSA VIDA. Disse-me o pai de um amigo, um dia, num encontro ocasional que serviu para conselhos de vida, que «o melhor a fazer» - assim, lato sensu - é definir um objectivo de longo prazo e ir cumprindo as suas partes. Para dar sustento às palavras, citou o proverbial Séneca Nenhum vento sopra a favor de quem não sabe para onde ir. Acreditei. E ainda hoje, quiçá por força de uma costela conservadora, acredito que vivem melhor os que sabem aquilo que procuram. O pior, aprendi depois, é o caminho que levamos para cumprir as partes. Aqui, a bem do bem-estar, convém ser mais liberal. Não podemos correr o risco da indecisão - mudando constantemente ou constantemente adiando a mudança -, nem tão pouco o da negação - ignorando o que nos faz ignorantes. Pensando assim, creio (espero, anseio), mudamos na hora certa. E fazemo-lo num minuto. Por mais que custe. Aos outros, claro.
«Então e aquele projecto de vida?»
«Mudou».
«Desististe?»
«Não, troquei»
Escusado será dizer que mudei, troquei um caminho. E que uma parte do cérebro resolveu passar isto a escrito para sossegar a outra. Agora vou deitá-las juntas e esperar que a reconciliação na cama tenha o efeito que se conhece. Até amanhã.

terça-feira, fevereiro 24

GACA E FARCO Aqui o camarada está maravilhado com a "fraternidade emigrante", onde "Porto" e "Lisboa" convivem alegremente na mesma rua. Quando cá vieres dou-te peixe frito para aprenderes. E cá em casa bebe-se Sagres preta.
PORTUGAL NO CORACHOM Vi apenas uns minutos da emissão de aniversário do "Portugal no Coração" gravada aqui em Paris, mas pairava um tom paternalista, de "viémos festejar com o coitado do emigrante que está tão longe da sua terra que tanto ama e anseia". Mas desta vez foram generosos. Em vez do habitual chouricinho, mandaram presuntos e um salpicão.
HIPOCRISIA. A todos aqueles que, como eu, acham que o senhor Gilligan foi condenado publicamente por um crime que pura e simplesmente não existe - no jornalismo, pelo menos -, recomendo vivamente a leitura deste artigo. O texto e as adendas. É tudo genial.

segunda-feira, fevereiro 23

FACA E GARFO. Aqui se define a fronteira entre as duas capitais de quem vos escreve, caro leitor. Enquanto ele, com soberba gastronómica, desdenha as riquezas da terra natal; eu, degredado no Tarrafal do guardanapo, quase salivo de pensar no que ele escorraça. Mas curioso foi o sentido de oportunidade. Precisamente quando acabo de conhecer o «Lisboa», supermercado, justamente à frente do «Porto», snack-bar. Ali em Nothing Hill, onde nunca imaginei. Comecei pelo Norte, como sempre, para o cafézinho e o pastel de nata. «Espere, não tenho aqui nada. Tenho de ir levantar»; «Deixe lá isso homem! Não vai deixar de comer porque não tem dinheiro». E de repente estou rendido e integrado na fraternidade emigrante. Depois enchi os sacos. Depois de abastecer a carteira, claro, que a Sul não há fiado. Um Casa de Santar reserva razoável, quatro latas de feijão preto, um chouriço bem apessoado, caldo verde congelado e quatro bocks já geladas. Paguei com gosto. Em libras, mas com gosto.
Tu foste encontrar o chévre e o confit de canard, dizes. Eu deixei-os em casa e vim atrás dos «Lisboas». Para já, vão-me divertindo.
CARNAVAL. É um privilégio raro poder passar esta altura do ano sem esbarrar em pequenos chouriçinhos lusos vestidos de Zorros e Cinderelas. É chato, no entanto, que por causa dos pais que passeiam os ditos chouriçinhos tenha sempre de haver alguém que trabalhe por eles. Enfim, um carnaval.

sexta-feira, fevereiro 20

A LAICIDADE Por causa de um sketch na televisão onde chamava ao eixo do Bem o eixo americo-sionista e faziam algumas piadas sobre os judeus, muitos espectáculos do humorista Dieudonné foram cancelados, o último dos quais em Paris. Não questiono as sensibilidades daqueles que se sentiram ofendidos e que o atacam em tribunal, mas as ameaças e o histerismo à volta de umas graças que podiam ter sido sobre portugueses, sobre chineses ou sobre pretos expõe a susceptibilidade dos franceses ao anti-semitismo. Não se enganem, este é o mesmo país onde um em cada cinco eleitores vota Le Pen, onde o uso do véu islâmico é considerada a prova do perigo muçulmano e onde a criminalidade é personificada nos magrebinos.
VISITAS Não, pela milésima vez, não! Não quero chouriços nem bacalhau, não tragam queijos nem morcelas, presuntos, vinho, azeitonas, pastéis de Belém, rissóis ou pastéis de bacalhau, azeite, couve, feijão frade, queijo da Serra da Estrela, café, bolos, fritos, sumos... Venham antes com vontade de comer um queijo camembert ou um chèvre, venham provar um confit de canard, de beber um bordeaux ou um Côtes du Rhone, um crepe de açúcar, banana e canela, ou fiquem-se por uma simples sanduiche de gruyere na padaria da esquina. Experimentem o croissant aux amandes e a água Volvic. Sim, é diferente, é menos salgado, é menos doce, é menos comida no prato, é francês. Não tragam as malas cheias de saudades. Não se incomodem. Por muito que custe imaginar, há quem viva sem suspirar por bacalhau à braz ao pequeno-almoço. Mas eu não represento nenhum grupo de expatriados. Estou aqui porque quero. E reconheço que existem destinos menos ditosos.

quinta-feira, fevereiro 19

VOCÊ SABIA QUE... Para assisitir a uma sessão de stand-up comedy do senhor Jerry Seinfled, actualmente em digressão pelos Estados Unidos, é preciso pagar qualquer coisa como 600 euros? Ah pois é...

terça-feira, fevereiro 17

ELOGIO DA RAZÃO PURA. Lembro-me de o meu professor de Filosofia descrever Kant como o gajo mais chato do mundo. Obssessivo, metódico, pontual, cinzento, sensaborão.... Tudo falso! De acordo com os novos biógrafos do filósofo, citados pelo Guardian, a verdade é que o Imanuel, entre os amigos, gostava muito mais de copos do que metafísica. Não foi casado, é certo, mas pelos vistos pelas melhores razões. Não lhe terão faltado mulheres para colmatar as grandes benesses do matrimónio. A expressão do jornal é elucidativa: um partygoer. Isto obriga-me a repensar tudo o que aprendi. Lembro-me, em particular, do mesmo professor contar a história caricata das vizinhas do filósofo que acertavam os relógios quando ele lhes passava à porta. Hoje percebo que durante duzentos anos só tivemos acesso à versão dos maridos.
SATANA LOPES Parece que as coisas estão quentes para o enfant terrible do PSD. Não só levou um raspanete do professor Marcelo como em França já começam a prender os fiéis do candidato a candidato à Presidência da República. É o resultado da globalização. Dizem que todo o mundo devia votar nas eleições presidenciais dos EUA porque é o destino do planeta que está em jogo. As consequências das eleições portuguesas serão menores, mas os receios aumentam.

segunda-feira, fevereiro 16

CASAMENTO. Em 1986, o «casal tipo» inglês casava-se quando a rapariga tinha 24 anos e o rapaz 26. Hoje, a rapariga tem 29 e o rapaz 31. Todos os anos aumentam uns meses à média. Todos os anos evoluem um pouco. Se calhar, como nota o Silva, é o medo de comprometer os anos felizes em troca de uma festa para os amigos. Ainda para mais, uma festa que acaba com rituais estranhos de comboios humanos a dançar o «vermelho vermelhão». Trinta e um parece-me bem. Sempre dá algum tempo para nos habituarmos à ideia.
ESTADO DA BLOGUENAÇÃO. Não sei se têm a mesma sensação, mas eu acho que os blogues de direita, de um modo geral, estão a sofrer de fadiga crónica. Ou porque estão cansados ou porque arranjaram bons empregos, o certo é que os seus autores estão a abandonar estas lutas progressivamente. A consequência está à vista: a esquerda começa a insultar-se mutuamente. É pena. As críticas do Filipe Moura ao Daniel Oliveira, por exemplo, são lamentáveis. O Filipe, que tanto gosto de ler, ataca o Daniel exactamente pelas duas coisas que mais lhe admiro: a militância partidária assumida e o anti-comunismo primário. Acho mal. A esquerda moderada devia seguir estes dois princípios à risca. Isto, claro, se ainda acreditar na vida depois da morte.
BOLA II Em terreno pouco neutro, a euforia do clássico SLB-FCP foi alimentada por um cozido à portuguesa, que soube muito bem ao meu amigo Belo, principalmente porque o Benfica conseguiu arrancar um empate ao Porto, o que podemos considerar como uma vitória face aos embates mais recentes a que assistimos juntos (lembras-te, Rui?). Confesso que, para mim, o prato ficou pelo correcto, tal como o resultado no marcador. Valeram as imperiais e os pastéis de nata, que aqui se comem aos pares. Se a RTP Internacional funcionar, as próximas futeboladas serão vistas aqui em casa. Mas as especialidades portuguesas serão mantidas na ementa, André.
BOLA. Emigra que é emigra vê a bola com a emigralhada. Seja no Café Estrela, seja na muy nobre embaixada local do campião (a Casa FCP London), o importante é poder ter bocks à mão e preguinhos encharcados em Savora. Depois é ouvir os comentários bilingues ao árbitro - fuck deste cabrão! - e aos dribles dos nossos artistas – good, good, avia-lhe! Se a coisa dá para golos honestos (os deles, claro, são sempre um escândalo, unbelievable…) há também que contar com calorosos abraços e cúmplices apertos de mão no final do jogo. Um must!
DESMENTIDO PÚBLICO. Ernesto* DF, homem recatado e de vícios privados, associa-me a práticas ilícitas que quero publicamente repudiar. Para que fique claro, não sei quem é o Vostradeis, nunca fui ao Lux e nem sequer sei o que são plantas.
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