segunda-feira, fevereiro 23

CARNAVAL. É um privilégio raro poder passar esta altura do ano sem esbarrar em pequenos chouriçinhos lusos vestidos de Zorros e Cinderelas. É chato, no entanto, que por causa dos pais que passeiam os ditos chouriçinhos tenha sempre de haver alguém que trabalhe por eles. Enfim, um carnaval.

sexta-feira, fevereiro 20

A LAICIDADE Por causa de um sketch na televisão onde chamava ao eixo do Bem o eixo americo-sionista e faziam algumas piadas sobre os judeus, muitos espectáculos do humorista Dieudonné foram cancelados, o último dos quais em Paris. Não questiono as sensibilidades daqueles que se sentiram ofendidos e que o atacam em tribunal, mas as ameaças e o histerismo à volta de umas graças que podiam ter sido sobre portugueses, sobre chineses ou sobre pretos expõe a susceptibilidade dos franceses ao anti-semitismo. Não se enganem, este é o mesmo país onde um em cada cinco eleitores vota Le Pen, onde o uso do véu islâmico é considerada a prova do perigo muçulmano e onde a criminalidade é personificada nos magrebinos.
VISITAS Não, pela milésima vez, não! Não quero chouriços nem bacalhau, não tragam queijos nem morcelas, presuntos, vinho, azeitonas, pastéis de Belém, rissóis ou pastéis de bacalhau, azeite, couve, feijão frade, queijo da Serra da Estrela, café, bolos, fritos, sumos... Venham antes com vontade de comer um queijo camembert ou um chèvre, venham provar um confit de canard, de beber um bordeaux ou um Côtes du Rhone, um crepe de açúcar, banana e canela, ou fiquem-se por uma simples sanduiche de gruyere na padaria da esquina. Experimentem o croissant aux amandes e a água Volvic. Sim, é diferente, é menos salgado, é menos doce, é menos comida no prato, é francês. Não tragam as malas cheias de saudades. Não se incomodem. Por muito que custe imaginar, há quem viva sem suspirar por bacalhau à braz ao pequeno-almoço. Mas eu não represento nenhum grupo de expatriados. Estou aqui porque quero. E reconheço que existem destinos menos ditosos.

quinta-feira, fevereiro 19

VOCÊ SABIA QUE... Para assisitir a uma sessão de stand-up comedy do senhor Jerry Seinfled, actualmente em digressão pelos Estados Unidos, é preciso pagar qualquer coisa como 600 euros? Ah pois é...

terça-feira, fevereiro 17

ELOGIO DA RAZÃO PURA. Lembro-me de o meu professor de Filosofia descrever Kant como o gajo mais chato do mundo. Obssessivo, metódico, pontual, cinzento, sensaborão.... Tudo falso! De acordo com os novos biógrafos do filósofo, citados pelo Guardian, a verdade é que o Imanuel, entre os amigos, gostava muito mais de copos do que metafísica. Não foi casado, é certo, mas pelos vistos pelas melhores razões. Não lhe terão faltado mulheres para colmatar as grandes benesses do matrimónio. A expressão do jornal é elucidativa: um partygoer. Isto obriga-me a repensar tudo o que aprendi. Lembro-me, em particular, do mesmo professor contar a história caricata das vizinhas do filósofo que acertavam os relógios quando ele lhes passava à porta. Hoje percebo que durante duzentos anos só tivemos acesso à versão dos maridos.
SATANA LOPES Parece que as coisas estão quentes para o enfant terrible do PSD. Não só levou um raspanete do professor Marcelo como em França já começam a prender os fiéis do candidato a candidato à Presidência da República. É o resultado da globalização. Dizem que todo o mundo devia votar nas eleições presidenciais dos EUA porque é o destino do planeta que está em jogo. As consequências das eleições portuguesas serão menores, mas os receios aumentam.

segunda-feira, fevereiro 16

CASAMENTO. Em 1986, o «casal tipo» inglês casava-se quando a rapariga tinha 24 anos e o rapaz 26. Hoje, a rapariga tem 29 e o rapaz 31. Todos os anos aumentam uns meses à média. Todos os anos evoluem um pouco. Se calhar, como nota o Silva, é o medo de comprometer os anos felizes em troca de uma festa para os amigos. Ainda para mais, uma festa que acaba com rituais estranhos de comboios humanos a dançar o «vermelho vermelhão». Trinta e um parece-me bem. Sempre dá algum tempo para nos habituarmos à ideia.
ESTADO DA BLOGUENAÇÃO. Não sei se têm a mesma sensação, mas eu acho que os blogues de direita, de um modo geral, estão a sofrer de fadiga crónica. Ou porque estão cansados ou porque arranjaram bons empregos, o certo é que os seus autores estão a abandonar estas lutas progressivamente. A consequência está à vista: a esquerda começa a insultar-se mutuamente. É pena. As críticas do Filipe Moura ao Daniel Oliveira, por exemplo, são lamentáveis. O Filipe, que tanto gosto de ler, ataca o Daniel exactamente pelas duas coisas que mais lhe admiro: a militância partidária assumida e o anti-comunismo primário. Acho mal. A esquerda moderada devia seguir estes dois princípios à risca. Isto, claro, se ainda acreditar na vida depois da morte.
BOLA II Em terreno pouco neutro, a euforia do clássico SLB-FCP foi alimentada por um cozido à portuguesa, que soube muito bem ao meu amigo Belo, principalmente porque o Benfica conseguiu arrancar um empate ao Porto, o que podemos considerar como uma vitória face aos embates mais recentes a que assistimos juntos (lembras-te, Rui?). Confesso que, para mim, o prato ficou pelo correcto, tal como o resultado no marcador. Valeram as imperiais e os pastéis de nata, que aqui se comem aos pares. Se a RTP Internacional funcionar, as próximas futeboladas serão vistas aqui em casa. Mas as especialidades portuguesas serão mantidas na ementa, André.
BOLA. Emigra que é emigra vê a bola com a emigralhada. Seja no Café Estrela, seja na muy nobre embaixada local do campião (a Casa FCP London), o importante é poder ter bocks à mão e preguinhos encharcados em Savora. Depois é ouvir os comentários bilingues ao árbitro - fuck deste cabrão! - e aos dribles dos nossos artistas – good, good, avia-lhe! Se a coisa dá para golos honestos (os deles, claro, são sempre um escândalo, unbelievable…) há também que contar com calorosos abraços e cúmplices apertos de mão no final do jogo. Um must!
DESMENTIDO PÚBLICO. Ernesto* DF, homem recatado e de vícios privados, associa-me a práticas ilícitas que quero publicamente repudiar. Para que fique claro, não sei quem é o Vostradeis, nunca fui ao Lux e nem sequer sei o que são plantas.
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sexta-feira, fevereiro 13

PORTUGAL Missão impossível.
1 MINUTO E 50 SEGUNDOS foi o tempo que o Telejornal deu para divulgar um artigo escrito de Freitas do Amaral na Visão (artigo não acessível) sobre o aborto, recorrendo a imagens de arquivo e das páginas da revista. Isto não é televisão e é um parco serviço público.
BARBIES COMO NÓS. A «bomba» é anunciada na edição de hoje do Estadão. O romance acabou para Barbie e Ken. Depois de 43 anos como um dos mais belos casais do mundo das bonecas, o par de plástico está rompendo. Sua “agente de negócios”, Russell Arons, vice-presidente de marketing da Mattel, diz que “sente que é tempo de divertirem-se, sozinhos.” Aqui está Zé Mário. Queixavas-te da retrógrada Anita, aí tens uma Barbie avant-garde.
O MARCO. Por sugestão do País Relativo cheguei ao artigo do jornalista Rui Baptista, do Público, sobre Avelino Ferreira Torres. Não tenho por hábito elogiar a concorrência profissional, por muitas razões que não explicarei aqui. Em síntese, digo apenas que normalmente não encontro grandes razões para o fazer, e que já há demasiadas pessoas a fazer esse «serviço» por mim. Hoje, no entanto, vejo-me obrigado a abrir uma excepção. O Rui Baptista, que não conheço de parte nenhuma - ou seja, isto não é um favor de «camaradagem» -, faz um retrato exemplar do autarca feudal. A escrita é criativa e limpa. As ideias são claras e estão plenamente justificadas pelos factos. Pode parecer um elogio exagerado para uma peça como qualquer outra, pesada a quatro ou cinco mil caracteres, mas não é. As minhas referências são estes textos.

quinta-feira, fevereiro 12

ADM Não sei se se lembram mas, na adolescência, a porta de entrada da casa dá directamente acesso ao frigorífico. Ora, certa vez, em plena crise de crescimento, encontrei uma tijela enorme de mousse de chocolate que a minha mãe tinha deliciosamente preparado para coroar um jantar especial preparado para os meus tios, de visita a Lisboa. Como se sabe, o chocolate é uma matéria perigosa, cuja ingestão causa sérios problemas digestivos com consequências intestinais, mesmo para o estômago blindado de um jovem. Para resumir, posso dizer que durante duas semanas ninguém se aproximou de uma certa divisão comum da casa, o que obrigou os seus habituais utentes a abusar da disponibilidade gentil da vizinha do lado. Do incidente tirei uma lição que tenho usado em diversos momentos na minha curta vida. Foi só vários meses depois, já estava eu recuperado, que fui confrontado pela minha mãe: "Se soubesses que ias causar aqueles estragos, filho, tinhas comido aquela mousse toda?" Mas como é que eu podia saber?
INÓCUO, O TANAS. Primeiro o Pedro a dizer que se está «nas tintas para ser de direita ou não», agora o Ricardo, em mais um excelente post, a dizer que tem opiniões contraditórias em relação a todas as grandes questões que têm dividido esquerda e direita. Este passeio de regresso à blogosfera está a ser compensador. Tranquiliza-me ver que a moderação sempre tem lugar entre a inteligência.
DD. O Pedro Mexia decidiu alimentar o blog a presatações mensais. Como leitor «exigente» do Dicionário só posso lamentar a decisão e ir-me contentando com os posts recentes. Há dois, em especial, que recomendo vivamente.
O primeiro, claro, sobre a guerra. «Não», diz o Pedro, não apoiaria a guerra se soubesse o que sei hoje. Continuo à espera de ouvir a mesma sinceridade de muito boa gente.
O segundo, melhor ainda, sobre a recorrente discussão esquerda/direita. É um post feito a propósito da Maria Filomena Mónica - cujo pessimismo, confesso, muito admiro - e tem revelações imperdíveis. Não o cito, linko.
RITA LEE.
Amor sem sexo,
É amizade
Sexo sem amor,
É vontade...

Fui ao Kazaa à procura do ritmo do poema. Escrevi o título: «Amor e Sexo». De certeza? perguntou-me logo o bicho. É que de acordo com o «adult filter» (cuja existência desconhecia) havia duas palavras perigosas na minha pesquisa. Parece-me exagerado. Que o amor seja coisa de adultos ainda consigo perceber, agora o sexo... Púdicos!

AÇORES. Para o André, recém chegado à blogosfera, um abraço e este postal amigo.