quinta-feira, fevereiro 5

TV POR CABO Luto com vários argumentos que me empurram a finalmente instalar a TV por cabo. Primeiro: ver filmes e séries sem pensar que o Clint Eastwood foi possuído por um ventríloquo francês. Segundo: ter mais escolha e canais de informação. Terceiro: ter a RTP Internacional. Pensando bem, este não conta como vantagem.
RÁDIO VS. TV Há dez dias que a maioria dos jornalistas das rádios públicas francesas estão em greve porque querem ordenados iguais aos dos jornalistas das televisões públicas, o que quase acabou com os noticiários radiofónicos. Na minha opinião, a reivindicação é mais que justa. O único argumento que vejo para a diferença - a exposição pública que os jornalistas de TV têm - não se aplica a todos e é um critério dúbio. Sim, porque lá por serem mediáticos não são obrigados a ir aos eventos sociais nem a dar entrevistas às imprensa cor-de-rosa.

PS: Já depois de escrever o post, li o Libération, que traz uma sondagem onde a rádio é considerada o media mais credível, à frente da imprensa. No fim vem a televisão.

DEMOCRACIA E ALARVIDADE. Um grupo de activistas contra a guerra foi assisitir ao debate sobre o caso Hutton, no Parlamento, para poder gritar a meio da sessão quando o primeiro-ministro falasse aos deputados. A iniciativa não podia ter corrido melhor (do ponto de vista deles, claro). Assim que Tony Blair começou a falar no assunto, as alminhas indignadas lá encheram os pulmões e destaram a cuspir impropérios das galerias. Seguiu-se a costumeira pausa e respectiva evacuação dos trogloditas. Do alto da minha sabedoria latino-eurpeia, não estranhei nada. Nem podia, como é óbvio. O que realmente me surpreendeu foi o semi-escândalo que surgiu depois. Durante todo o dia, os telejornais abriram com os ditos activistas aos berros no Parlamento. Nos estúdios, todos os comentadores condenavam o acto com o vocabulário apropriado à anormalidade da situação.
Gostei de registar várias coisas no acontecimento: primeiro, a surpresa que causou. Um bom sintoma que a javardice, por estas paragens, não é rotineira. Segundo, o facto de todos os deputados se esforçaram por ignorar o tumulto. Não fosse a palhaçada estar bem organizada e, ao que me pareceu, os trabalhos tinham continuado como se nada fosse. Terceiro, as reacções. Ou melhor, a falta delas. Não vi nem o presidente da Câmara dos Comuns a responder na mesma moeda, isto é, aos gritos; nem nenhum deputado a defender os animais com argumentos idiotas de liberdade de expressão. É a vantagem de a educação não ser património ideológico. E de não se confundir democracia com alarvidade.

quarta-feira, fevereiro 4

JUSTIÇA. Um certo editorial moveu paixões contra o seu autor. Eu juntei-me a essas paixões até que hoje... fez-se-me luz. O senhor tinha razão.
DEBOCHE À VISTA. Os ingleses, vou-me agora apercebendo, têm um fetiche por estudos sociológicos. Todos os dias dou de caras com conclusões alucinantes nos jornais mais sérios cá do burgo. A última é do Centro de investigação John Moores, da Universidade de Liverpool (?). Dizem os senhores investigadores que depois de ouvir umas centenas largas de jovens que no Verão rumam a Ibiza - aquela espécie rosadinha e anafadinha, portanto - concluíram que os adolescentes correm sérios riscos de vida pelos seus comportamentos «promíscuos». E agora a parte juicy : um quarto dos rapazes que fazem férias na ilha espanhola confessa ter tido relações sexuais com mais de uma parceira, no espaço de uma semana. Nas meninas, menos expeditas ou mais honestas, a taxa baixa para uma em cada sete. Juntem este facto aos 200 mil brits que vão rumar aí dentro de uns meses e durmam bem.

terça-feira, fevereiro 3

CARPE DIEM E voilà, Alain Juppé mantém-se na política, pelo menos até ser analisado o recurso. Num ano pode acontecer muita coisa. Pode ser que apareça um lór Huttóne.
TABU À LA SANTANA LOPES É hoje que Alain Juppé anuncia se fica ou não na política. Antes de conhecer a sentença que determina dez anos sem que possa ser eleito para cargos públicos, afirmou que abandonaria a vida política se fosse condenado. Mas, agora que sabe, qual será a sua decisão? Rendez-vous hoje às 20:00 horas no telejornal da TF1.
O PADRINHO Jacques Chirac, presidente da mui laica República francesa, deu ontem uma palavra de apoio ao seu amigo Alain Juppé, a quem reconhece inúmeras qualidades, entre as quais de "honestidade" e "humanismo". Disse publicamente, numa deslocação oficial no exercício das suas funções, que "a França precisa de homens assim". Não, isto não pode ser considerada pressão sobre os juízes. Ele não disse: tenho uma proposta irrecusável para fazer aos juízes...
GOOD MEMORIES Alain Juppé entrou na política pela mão de Jacques Chirac como seu conselheiro e foi da sua mão que saíram muitos dos discursos de Jacques Chirac. Foi durante a presidência de Jacques Chirac na Câmara Municipal de Paris que Alain Juppé foi tesoureiro da autarquia. Nessa mesma altura, Jacques Chirac era presidente do RPR e Alain Juppé secretário-geral. Mais tarde, Alain Juppé foi primeiro-ministro indigitado pelo presidente da República Jacques Chirac. Recentemente, Alain Juppé foi eleito presidente da UMP, o partido criado pelos apoiantes ao segundo mandato de Jacques Chirac na presidência da República.

COISAS DA VIDA Foi enquanto adjunto para as finanças de Jacques Chirac na Câmara Municipal de Paris que Alain Juppé pagou o salário a sete funcionários do RPR, partido onde na altura era secretário-geral e Jacques Chirac presidente. Foi o presidente Jacques Chirac que dissolveu o governo de Alain Juppé em 1997 e marcou eleições antecipadas, ganhas pelos socialistas. Foi durante o segundo mandato de Jacques Chirac na presidência da República, para o qual contribuiu reunindo a direita na UMP, que Alain Juppé foi condenado a 18 meses de prisão de pena suspensa e dez anos de inelegibilidade pelas irregularidades praticadas na Câmara de Paris.

segunda-feira, fevereiro 2

ÚLTIMA HORA. A Casa Branca acaba de anunciar que o presidente Bush, num gesto magnânimo, decidiu formar uma comissão de inquérito para investigar as informações dos serviços secretos que serviram para justificar a guerra do Iraque. O Estrangeirados também pode avançar em primeira mão que o imparcial Lorde Hutton recebeu já uma proposta para voltar a interromper a reforma e rumar aos Estados Unidos em comissão de serviço.

Ficha técnica: A informação foi apurada pelo cruzamento dos depoimentos de três fontes anónimas, todas reconhecidas pelo Sindicato dos Zeladores da Ética Profissional Jornalística e pela Associação Recreativa dos Juristas na Terceira Idade. As entrevistas foram realizadas em locais com ar condicionado, serviço de bar permanente e buffet de saladas. No final, todos os entrevistados assinaram um compromisso de honra, na qual juraram sentir-se «muito confortáveis» no papel de fonte.

sexta-feira, janeiro 30

ORWEU. O diálogo que se segue é um exerto de uma conversa entre dois jornalistas, na redacção do jornal Farol dos Piolhos, no dia 30 de Janeiro de 2006. Num tom de exemplar civilidade, os dois profissionais discutiam a legitimidade do programa americano para a «Democratização da orla costeira africana», onde se sabia estarem refugiados os principais cabecilhas da Al Aqsa, junto de plataformas petrolíferas. Era então o maior risco que o mundo civilizado enfrentava, já que os perigosos guerrilheiros eram suspeitos de estar armados com as temíveis ogivas nucleares que podiam destruir o mundo inteiro em sete segundos e meio, fabricadas pelos melhores artífices de charutos do regime de Castro:

- É engraçado falares desses cientistas que foram fuzilados por fogo amigo, lembra-me aquele caso Hutton.
- Hutton?
- Sim, aquele em que demitiram os gajos todos da BBC depois deles terem dito que o governo tinha mentido sobre as armas químicas.
- Ahhh, esse! Mas o governo mentiu mesmo não foi?
- Mentiu, mas... (longa pausa)... agora que dizes isso, não me lembro porque é que os gajos foram acusados.
- Morreu um gajo qualquer não foi?
- Foi, o tal cientista, mas acho que esse não tinha nada a ver com a história. Á! Já sei! Eles disseram que o governo tinha «apimentado» um dossier sobre armas químicas, quando na verdade só lhe fez quinze alterações para o «tornar mais forte».
- Mmmmm....

quinta-feira, janeiro 29

HUTTON 1. Enquanto ando às voltas com o trigo factual, refugio-me aqui para o joio opinativo. Greg Dyke, o director-geral da BBC que se demitiu na sequência do relatório Hutton, é o chefe que todos os jornalistas gostariam de ter. Ou deveriam gostar de ter. Voltarei ao assunto, prometo.
LOBOTOMIA Apercebi-me mesmo agora que, além das deformações na fala, a prática diária da lingua francesa afectou-me o raciocínio. Até quando leio inglês tenho um irritante sotaque gaulês que me atrasa a compreensão das palavras. Ridículo.

quarta-feira, janeiro 28

GALPALIZAÇÃO Ontem, no palácio do Eliseu, o presidente Jacques Chirac foi anfitrião de uma cerimónia de apoio ao Pacto Global, iniciativa do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, no sentido de comprometer as empresas a respeitar diversos princípios éticos, sociais e ambientais na sua actividade. Dezenas de responsáveis estiveram simbolicamente presentes, entre os quais portugueses, e afirmaram o seu empenho na causa. Provavelmente, no mesmo momento, o porta-voz da Galp fazia declarações ao DN, pouco surpreendido por o ministério do Ambiente, em nome das reservas nacionais de gasolina, ter autorizado a reactivação do parque de combustíveis de Sacavém. Sim, no mesmo local para onde estava anunciado, nos velhos tempos da construção da Expo'98, "o maior parque urbano da Europa". Eis que a esperança surge no fundo o barril. Dispondo-se a zarpar para Sines, a Galp propõe a alteração ao PDM municipal para, quem sabe, se construir uma interessante urbanização, de preferência de habitação social, construída com materiais que não degradem o ambiente e respeitando a reserva ecológica do Estuário do Tejo, que por acaso é mesmo em frente. Assim, e sem infringir os exemplares preceitos louvados a 1.800 km de Lisboa, a Galp poderia vender o terreno por uns milhões de euros que ajudassem a financiar a construção de um novo parque, de acordo com outra importante norma, a de "não prejudicar os interesses da empresa". Parece aquela história do bater de asas da borboleta e do terramoto no outro lado do mundo. Ou da outra, da corrente de ar nos EUA e da constipação no Japão. Neste caso, acho que a borboleta apanhou um resfriado.

terça-feira, janeiro 27

AUSÊNCIA. Uns dias longe do ecrã e um grupo de descrentes pergunta-me logo se já desisti do blogue. Muito pelo contrário! O que aconteceu é que nas últimas semanas reparei que alguns dos nossos melhores blogs têm passado por longos períodos de silêncio. Vai disto, como não gosto de ficar atrás das elites, decidi fazer o mesmo. Portanto, se passo por este sacrifício de quando em vez, é precisamente para vos mostrar, caros leitores, que levo isto muito a sério. Muito obrigado pela preocupação.

segunda-feira, janeiro 26

VIVA A BURKA

Vauro no Il Manifesto
WEBCAM Foi a loucura. Ano e meio depois de ter voltado a Lisboa, um camarada da resistência parisiense comprou uma câmara e lançou a inveja. Fomos nessa, claro. A primeira videoconferência resultou na perfeição e repetimos, a solo e em grupo. Mesmo depois de passada a novidade, continuávamos a gostar de falar uns minutos por dia, à noite, só para matar saudades, para trocar umas receitas ou para dar as últimas do futebol ou da política. A coisa correu sempre tão bem que decidimos marcar um jantar. Um casal de cada lado, de câmara ligada, mantivémos o costume antigo e enquanto uns trataram do prato principal os outros ocuparam-se das bebidas. Quando ligámos o programa, a carne ainda estava no formo, por isso fomos beberricando umas cervejas e fazendo as graçolas de sempre. Quando fomos para a mesa, já estávamos tocaditos. A troca de galhardetes continuou. A fechar o jantar veio o café e a mousse de chocolate da praxe, que fomos digerir para o sofá, onde os temas de conversa são mais sérios e íntimos. A música estava boa, a cerveja e a aguardente continuaram a animar até que decidimos perder o último Metro e aproveitar estes momentos, que a distância tornou mais raros. A cavaqueira continuou até tarde e foi com o amanhecer que decidimos dormir mesmo ali no chão, em camas improvisadas, como nos velhos tempos.
GRIPE AVIÁRIA
Estou muito melhor
do defluxo, obrigado.
O corrimento nasal
foi
estancado.
FEHÉR Felizmente, só posso imaginar a histeria mediática em Portugal à volta da morte do jogador do SLB.
NEVE Caiu durante vários minutos, mas não ficou nada. Maldita chuva que fez derreter tudo. Nem os mosquitos vão poder fazer batalhas de neve. Sinto-me enganado.