terça-feira, janeiro 13
AO LONGE. O emigrante, como podem supôr as almas mais sensíveis, sofre muito com a falta dos valores espirituais da terra. Por isso, prefere convencer-se que nada sobreviverá à sua ausência. Até que um dia, um amigo qualquer - chamemos-lhe gajo – resolve acabar com esta doce ignorância e telefona para lhe dizer coisas como: «viste aquele Maciel? O tipo é bom pá! Temos jogador» Isto, meus amigos, parecendo que não, custa muito. Como custa aquele telefonema a meio da noite de três gajos bêbedos (ou drogados, não consigo distinguir pela linha) com este discurso perverso: «isto está muita boooom pá! Só cá fazes tu falta. Se visses como é que está a...» Também não se diz. É incómodo. E agora, pior ainda, a moda chegou aos blogues. É o Silva, que nem conheço, a falar da esplanada do Casanova e dos copos no Lux; o capitão Vitor Lazlo a puxar aquela conversa de mecânico de alças que nos alegrava as noites acidentais. Enfim. Eu um dia vingo-me.
segunda-feira, janeiro 12
GUERRAS CIVIS Avançando com um balanço de 2003, o primeiro-ministro francês disse hoje que houve menos 1.510 mortos em acidentes de viação a menos que os 7.242 registados em 2002. E - boa notícia também para o défice do sistema de saúde - menos 43.000 feridos nos últimos dois anos. Ora, com o duo Jean-Pierre Raffarin/Jacques Chirac a salvar tantas vidas em França, porque é que a administração Bush insiste em baixar a população mundial - em particular, a do seu próprio país?
THE SIMS 2 Imagine que está apenas a jogar um jogo de computador. O objectivo é construir a vida de uma personagem. Imagine: é uma oportunidade para concretizar sonhos antigos e ter fantásticas casas com piscina e jacuzzi, fabulosos carros desportivos e empregos interessantes. Imagine que neste jogo pode até cultivar pés de cannabis. Imagine que, no final de uma longa jornada de trabalho virtual, desejoso de vestir algo mais confortável, encontra a sua mulher...
Enfim, pode ser que, sendo um jogo, seja possível dar a volta. Imagine.
FLASHBACK (Sobre o que Paul O'Neill, ex-secretário do Tesouro dos EUA disse sobre a invasão do Iraque não faltam comentários, que podem encontrar nos outros blogues. Não tenham problemas em mudar de canal.) Faz pouco mais de um ano que O'Neill foi literalmente despedido, sem direito a pré-aviso nem direito de resposta. O então porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, ficou com a batata quente: explicar aos jornalistas, que encontraram uma forma genial de introduzir a questão.
BRASIL Fico orgulhoso por ver que o Brasil, essa nação que dá coerência ao estranho conceito da lusofonia, está a fazer frente aos Estados Unidos. Ao abrigo do princípio da reciprocidade, começou a escanar as impressões digitais e a fotografar os norte-americanos que entram no país, tal como fazem aos brasileiros nos EUA. E tem-se aguentado contra as pressões e protestos. Embora a fórmula an eye for an eye, a tooth for a tooth seja reprovável em numerosas situações, esta iniciativa de Brasília pode muito bem servir para sensibilizar os cidadãos norte-americanos, que devem estar a leste do que a sua administração faz e do que isso implica para pessoas cujo único crime foi o de quererem entrar noutro país.
Os portugueses e outros 27 países deviam estar isentos, mas na prática parece que isso não acontece.
VÉU O que se passa nas redacções dos jornais é quase opaco. Já o que vai na cabeça dos jornalistas é, muitas vezes, perceptível. O provedor dos leitores do Le Monde, Robert Solé, deu conta na sua crónica deste sábado que os jornalistas do jornal francês estão divididos sobre o uso do véu islâmico nas escolas e deu conta de uma reunião da redacção, na semana passada, para discutir o assunto. Solé não só dessacralizou o funcionamento do jornal, como ajudou a humanizar os profissionais que o redigem. Levantou ele próprio um véu. E mesmo assim, dois dias depois, o céu continua lá em cima, ora com nuvens chuvosas, ora com abertas radiosas. Enfim, há jornais de referência e jornais de referência. A ver vamos se Solé resiste a mais esta.
BOM DIA Uma das primeiras regras que aprendi quando cheguei em Paris foi cumprimentar os lojistas. Sempre que entro na padaria, no café, na venda dos jornais ou numa grande loja de roupa, a primeira coisa que faço é responder ao bonjour que oiço de trás do balcão ou de um empregado que passa. À saída, trocamos um bonne journée e um au revoir, sem sabermos se nos vamos rever. Este hábito entranhou-se, e em Portugal dou por mim a dizer boa tarde a uma caixa de supermercado que está demasiado preocupada em compor melodias com a passagem dos códigos de barras e não chega a levantar os olhos da registadora. Ou a fazer todo o caminho da mesa à porta de um restaurante em marcha-a-ré, à espera de um adeus, até à próxima, obrigadinho. E nada - ou quase nada. Sem querer generalizar, a coisa passa-se melhor aqui. Podemos discutir os tons de cumprimentos: artificiais, irritantes ou genuinamente alegres e simpáticos. Podemos questionar se isto é determinante para voltar ali ou se é a eficácia do serviço que importa. Podem até fazer pouco deste estrangeirado por escrever sobre coisas tão fúteis. Mas devo confessar que a vida é feito de banalidades, mesmo aqui, no mundo civilizado.
domingo, janeiro 11
DEVER DE RESPOSTA. Caro João:
Escrever bem não é um mérito qualquer. Contas por alto, o dom deve bafejar uns 5% dos nossos cronistas. Se JPC vem engrossar esta margem eu, como leitor, dou-lhe automaticamente as boas vindas. É esta a primeira razão dos meus elogios. Já basta que ninguém se indigne com os textos dos nossos ilustres deputados que começam com frases como «O ano de 2003 foi mau». Ou com o espaço nobre que algumas senhoras ocupam nos nossos jornais para dizerem ao mundo que «É importante ser feliz».
Mas tu falas do conteúdo, obviamente. É claro que não há verbo que compense «dislates» e «incorrecções factuais». Mas quanto a isso não te posso responder, infelizmente, porque o Expresso não chega ao mundo civilizado. O que te posso dizer, pelas citações que vejo, é que tanto o texto como as tuas críticas tresandam à alergia ideológica do costume. E nenhum é sensaborão.
Escrever bem não é um mérito qualquer. Contas por alto, o dom deve bafejar uns 5% dos nossos cronistas. Se JPC vem engrossar esta margem eu, como leitor, dou-lhe automaticamente as boas vindas. É esta a primeira razão dos meus elogios. Já basta que ninguém se indigne com os textos dos nossos ilustres deputados que começam com frases como «O ano de 2003 foi mau». Ou com o espaço nobre que algumas senhoras ocupam nos nossos jornais para dizerem ao mundo que «É importante ser feliz».
Mas tu falas do conteúdo, obviamente. É claro que não há verbo que compense «dislates» e «incorrecções factuais». Mas quanto a isso não te posso responder, infelizmente, porque o Expresso não chega ao mundo civilizado. O que te posso dizer, pelas citações que vejo, é que tanto o texto como as tuas críticas tresandam à alergia ideológica do costume. E nenhum é sensaborão.
sábado, janeiro 10
MAN WITHOUT A STAR Acho enervante quando batem palmas a meio de um set de jazz e nunca desperdicei lágrimas num filme do Lars von Trier. Mas hoje, depois de ver esta obra, tive de enxugar os olhos e retesar-me na cadeira para não me levantar, aplaudir e pedir bis. Nas mãos de King Vidor, Kirk Douglas fez o melhor filme de cowboys de que tenho memória - a par de Johnny Guitar, mas noutro estilo. O cinema foi inventado para que estes filmes existam. Temos um herói, justo, corajoso, corajoso, prudente, divertido, mulherengo, terno, heróico. Temos paisagem e contexto histórico. Temos romance. Temos humor. Temos até música. Temos, acima de tudo, um bom argumento com excelentes diálogos e magnificamente dirigido. Um acrobata no arame tem menos equilibrio. Johnny Guitar é o western em poesia. Randolph Scott e Budd Boetticher fizeram alguns dos clássicos que mantiveram o género. Man without a star é daqueles filmes em que os adjectivos se repetem e os pleonasmos não chegam.
A RETÓRICA DA VIDINHA. Quando escrevi o post anterior ainda não tinha lido este texto. É pena, porque está lá tudo o que queria exemplificar. Diz JPH que as «declarações públicas definitivas e irremediáveis sobre os mais diversos assuntos» acabaram por trair JPC, que tanto mal disse do Expresso e agora acabou a escrever para lá. Por estas e por outras, continua, é «que me recuso – por exemplo – a dizer que sou radicalmente contra a posse pelo Estado (ou aparentados, como a PT) de meios de comunicação social. Não posso. Sabe-se lá se um dia não lhes estarei a bater à porta a pedir emprego». Não há retórica que esbata contra esta vidinha, de facto.
JPC.
Premissa 1: Dentro e fora da sua geração, o João Pereira Coutinho é uma das pessoas que melhor escreve na imprensa portuguesa.
Premissa 2: O Expresso, quer a blogosfera queira quer não, é o Expresso: com todos os seus defeitos e virtudes, o jornal de referência que mais leitores tem por edição.
Conclusão: A estreia de João Pereira Coutinho no Expresso é um acontecimento feliz.
Há quem ponha em causa este silogismo por achar que o homem é convencido até à última casa, pretensioso e arrogante. Pela amostra daquilo que escreve até acredito que sim. Mas ao contrário de quem faz este tipo de crítica sou bastante menos exigente com as páginas de opinião que leio. Basta-me que sejam bem escritas, tenham humor e algumas ideias. Estou-me completamente borrifando para o perfil do homem por trás da assinatura. Só quero lê-lo para poder concordar ou discordar. Não quero tomar chá nem construir uma bela amizade.
Depois, há também quem acuse o estilo maniqueísta de JPC. A bílis em excesso. Com isto concordo em certa medida. Espero que o lado institucional do Expresso sirva para acrescentar pragmatismo a alguns excessos. De qualquer modo, enquanto a opção for entre o determinismo destrutivo e o equilíbrio sensaborão não hesitarei um segundo. Finalmente, há quem insinue que JPC só trocou o Independente pelo Expresso por uma questão de dinheiro. Aqui só não percebo porque é que se insinua. É óbvio.
Acho que não vale a pena citar os restantes esgares de ódio. Tudo redunda no mesmo: não gostam que o tipo seja bom e não gostam que o tipo seja de direita. Eu cá não sou invejoso.
Premissa 1: Dentro e fora da sua geração, o João Pereira Coutinho é uma das pessoas que melhor escreve na imprensa portuguesa.
Premissa 2: O Expresso, quer a blogosfera queira quer não, é o Expresso: com todos os seus defeitos e virtudes, o jornal de referência que mais leitores tem por edição.
Conclusão: A estreia de João Pereira Coutinho no Expresso é um acontecimento feliz.
Há quem ponha em causa este silogismo por achar que o homem é convencido até à última casa, pretensioso e arrogante. Pela amostra daquilo que escreve até acredito que sim. Mas ao contrário de quem faz este tipo de crítica sou bastante menos exigente com as páginas de opinião que leio. Basta-me que sejam bem escritas, tenham humor e algumas ideias. Estou-me completamente borrifando para o perfil do homem por trás da assinatura. Só quero lê-lo para poder concordar ou discordar. Não quero tomar chá nem construir uma bela amizade.
Depois, há também quem acuse o estilo maniqueísta de JPC. A bílis em excesso. Com isto concordo em certa medida. Espero que o lado institucional do Expresso sirva para acrescentar pragmatismo a alguns excessos. De qualquer modo, enquanto a opção for entre o determinismo destrutivo e o equilíbrio sensaborão não hesitarei um segundo. Finalmente, há quem insinue que JPC só trocou o Independente pelo Expresso por uma questão de dinheiro. Aqui só não percebo porque é que se insinua. É óbvio.
Acho que não vale a pena citar os restantes esgares de ódio. Tudo redunda no mesmo: não gostam que o tipo seja bom e não gostam que o tipo seja de direita. Eu cá não sou invejoso.
sexta-feira, janeiro 9
EXCITAÇÃO GRÁFICA. Pois é. Aprendi a pôr imagens. A responsável pelo feito é esta simpática senhora. Para ela um muito obrigado. Para todos, votos de um 2004 feliz. Fiquem com a imagem do ano.
quinta-feira, janeiro 8
BILL MURRAY Ontem fui ver Lost in translation, da Sofia Coppola, filha do Francis Ford - e prima do Nicolas Cage - e gostei. Mais do que do anterior Virgens Suicidas, demasiado deprimente. Sou um admirador discreto do Bill Murray e não me chocou vê-lo neste papel mais dramático, embora se reconheça com agrado um pouco da sua veia cómica e irónica em algumas cenas em que os próprios figurantes se escangalham a rir. O filme roda à volta da tensão romântica que é criada com a Scarlett "barriguinha sexy" Johansson, criando um par de americanos perdidos na imensa Tóquio e ao mesmo tempo desorientados nas suas próprias vidas. Embora os japoneses saiam um pouco tocados pelo retrato escarninho que é feito no filme, a sua excentricidade nunca conseguirá bater a dos EUA. Conclusão: óptimo filme, boa banda sonora, excelentes interpretações. Já li que Murray é um proto-candidato aos óscares, mas duvido que a influência do clã Coppola seja suficiente. Ele desdenhou: "It's a really unattractive sight to see an actor or actress who really wants an Oscar. And you often see it on the show, you see their faces and the desperation is so ugly. Desperation is not a quality I long for. I'm over the Oscar. Sometimes people win it and you think, 'This can't be true.' It's a little bit of a popularity contest, too." Pode ser dor de cotovelo para um actor que, aos 53 anos, nunca foi nomeado (não é o único) e que acaba a dizer que só se interessa em fazer filmes que as pessoas gostam de ver. Yeah, right... Pormenor: a realizadora, que é também autora do argumento, disse que escreveu a personagem para Murray e que se ele não tivesse aceite desistia do filme.
DOIS AO QUADRADO (MENTAL). Estou abismado com o novo canal da sociedade civil. Nunca mais tinha ouvido falar da coqueluche do ministro Morais Sarmento até que há uns dias, no avião, passei os olhos por um jornal que, aparentemente, também faz parte da dita sociedade civil abnegada que vai «ajudar» o canal a retomar os bons caminhos do serviço público. Depois de perder alguns minutos a reflectir sobre estes exemplos bonitos de solidariedade civil fiquei a saber que o dois, perdão o 2:, é um projecto revolucionário, peregrino e iluminado (isto para resumir 44 adjectivos). Por exemplo, vai começar as emissões à tarde com a transmissão simultânea da Euronews, o que é absolutamente extraordinário. Deduzimos, pois, que o Euronews faz parte da nossa sociedade civil, o que deve ser bom (Europa/news/Portugal... tudo de bom). Depois terá um programa sobre política chamado Parlamento, um de ciência chamado 2010, um de religião chamado 70x7, o Novos Horizontes, o Bombordo etc, etc. Na mesma linha, tenho uma ideia a propor para um programa cultural: Artes e Letras. Não é genial? E que tal fazer uma rubrica de cinema temática e chamar-lhe, mmm.... digamos... Cinco Noites, Cinco Filmes! É giro não é? Já sabem, para o próximo grupo de reflexão contem comigo. É fácil isto. Basta excluir o Acontece, não é?
OS VERDES. Sobre a mais recente palhaçada casapiana, destaco a intervenção da deputada Isabel Castro sobre o assunto, em pleno hemiciclo (!), que de uma penada fez luz sobre todo o assunto. «Eu penso que há um problema grave ãhhhh.... e que esse problema grave ãhhhh.... exige que a justiça funcione». Aí está. O poder de síntese. O estilo acutilante. Crítica, mordaz, não obstante educada e subliminar. Brilhante. Eu voto verde.
quarta-feira, janeiro 7
AIR LUXOR. Ver uma empresa nacional a trepar a concorrência, copiar bons exemplos estrangeiros e assumir uma postura ambiciosa sabe bem. Era por isso que eu gostava da Air Luxor. Chegou, viu e venceu num mercado que mais parecia de camionagem aérea do que de transporte de pessoas. De tal forma respeitava este invulgar exemplo pródigo que quando vi as televisões noticiarem o «Caos na Air Luxor», há alguns dias, resolvi dar aos senhores o benefício da dúvida (até porque o bilhete estava comprado). E o que vos posso dizer agora, meus caros concidadãos bloggers, depois da experiência traumática de que ainda recupero, é que já fui mais bem tratado com o meu cachecol azul e branco nos estádios da segunda circular. Palavra de honra, há dias em apetece ser terrorista....
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