segunda-feira, janeiro 12

VÉU O que se passa nas redacções dos jornais é quase opaco. Já o que vai na cabeça dos jornalistas é, muitas vezes, perceptível. O provedor dos leitores do Le Monde, Robert Solé, deu conta na sua crónica deste sábado que os jornalistas do jornal francês estão divididos sobre o uso do véu islâmico nas escolas e deu conta de uma reunião da redacção, na semana passada, para discutir o assunto. Solé não só dessacralizou o funcionamento do jornal, como ajudou a humanizar os profissionais que o redigem. Levantou ele próprio um véu. E mesmo assim, dois dias depois, o céu continua lá em cima, ora com nuvens chuvosas, ora com abertas radiosas. Enfim, há jornais de referência e jornais de referência. A ver vamos se Solé resiste a mais esta.
BOM DIA Uma das primeiras regras que aprendi quando cheguei em Paris foi cumprimentar os lojistas. Sempre que entro na padaria, no café, na venda dos jornais ou numa grande loja de roupa, a primeira coisa que faço é responder ao bonjour que oiço de trás do balcão ou de um empregado que passa. À saída, trocamos um bonne journée e um au revoir, sem sabermos se nos vamos rever. Este hábito entranhou-se, e em Portugal dou por mim a dizer boa tarde a uma caixa de supermercado que está demasiado preocupada em compor melodias com a passagem dos códigos de barras e não chega a levantar os olhos da registadora. Ou a fazer todo o caminho da mesa à porta de um restaurante em marcha-a-ré, à espera de um adeus, até à próxima, obrigadinho. E nada - ou quase nada. Sem querer generalizar, a coisa passa-se melhor aqui. Podemos discutir os tons de cumprimentos: artificiais, irritantes ou genuinamente alegres e simpáticos. Podemos questionar se isto é determinante para voltar ali ou se é a eficácia do serviço que importa. Podem até fazer pouco deste estrangeirado por escrever sobre coisas tão fúteis. Mas devo confessar que a vida é feito de banalidades, mesmo aqui, no mundo civilizado.

Ainda ando a pensar no filme. Lembrei-me que, com o entusiasmo, não referi John Ford e tantas outras figuras do western, mas não foi desprezo. Um post de cada vez.

INVEJA. Em Nova Iorque neva (-2c diz o NYT). No Rio «O sol fez as pazes com os cariocas», diz o Globo (30/34c). E eu aqui, nas meias tintas.

domingo, janeiro 11

DEVER DE RESPOSTA. Caro João:
Escrever bem não é um mérito qualquer. Contas por alto, o dom deve bafejar uns 5% dos nossos cronistas. Se JPC vem engrossar esta margem eu, como leitor, dou-lhe automaticamente as boas vindas. É esta a primeira razão dos meus elogios. Já basta que ninguém se indigne com os textos dos nossos ilustres deputados que começam com frases como «O ano de 2003 foi mau». Ou com o espaço nobre que algumas senhoras ocupam nos nossos jornais para dizerem ao mundo que «É importante ser feliz».
Mas tu falas do conteúdo, obviamente. É claro que não há verbo que compense «dislates» e «incorrecções factuais». Mas quanto a isso não te posso responder, infelizmente, porque o Expresso não chega ao mundo civilizado. O que te posso dizer, pelas citações que vejo, é que tanto o texto como as tuas críticas tresandam à alergia ideológica do costume. E nenhum é sensaborão.

sábado, janeiro 10

MAN WITHOUT A STAR Acho enervante quando batem palmas a meio de um set de jazz e nunca desperdicei lágrimas num filme do Lars von Trier. Mas hoje, depois de ver esta obra, tive de enxugar os olhos e retesar-me na cadeira para não me levantar, aplaudir e pedir bis. Nas mãos de King Vidor, Kirk Douglas fez o melhor filme de cowboys de que tenho memória - a par de Johnny Guitar, mas noutro estilo. O cinema foi inventado para que estes filmes existam. Temos um herói, justo, corajoso, corajoso, prudente, divertido, mulherengo, terno, heróico. Temos paisagem e contexto histórico. Temos romance. Temos humor. Temos até música. Temos, acima de tudo, um bom argumento com excelentes diálogos e magnificamente dirigido. Um acrobata no arame tem menos equilibrio. Johnny Guitar é o western em poesia. Randolph Scott e Budd Boetticher fizeram alguns dos clássicos que mantiveram o género. Man without a star é daqueles filmes em que os adjectivos se repetem e os pleonasmos não chegam.
A RETÓRICA DA VIDINHA. Quando escrevi o post anterior ainda não tinha lido este texto. É pena, porque está lá tudo o que queria exemplificar. Diz JPH que as «declarações públicas definitivas e irremediáveis sobre os mais diversos assuntos» acabaram por trair JPC, que tanto mal disse do Expresso e agora acabou a escrever para lá. Por estas e por outras, continua, é «que me recuso – por exemplo – a dizer que sou radicalmente contra a posse pelo Estado (ou aparentados, como a PT) de meios de comunicação social. Não posso. Sabe-se lá se um dia não lhes estarei a bater à porta a pedir emprego». Não há retórica que esbata contra esta vidinha, de facto.
JPC.
Premissa 1: Dentro e fora da sua geração, o João Pereira Coutinho é uma das pessoas que melhor escreve na imprensa portuguesa.
Premissa 2: O Expresso, quer a blogosfera queira quer não, é o Expresso: com todos os seus defeitos e virtudes, o jornal de referência que mais leitores tem por edição.
Conclusão: A estreia de João Pereira Coutinho no Expresso é um acontecimento feliz.

Há quem ponha em causa este silogismo por achar que o homem é convencido até à última casa, pretensioso e arrogante. Pela amostra daquilo que escreve até acredito que sim. Mas ao contrário de quem faz este tipo de crítica sou bastante menos exigente com as páginas de opinião que leio. Basta-me que sejam bem escritas, tenham humor e algumas ideias. Estou-me completamente borrifando para o perfil do homem por trás da assinatura. Só quero lê-lo para poder concordar ou discordar. Não quero tomar chá nem construir uma bela amizade.
Depois, há também quem acuse o estilo maniqueísta de JPC. A bílis em excesso. Com isto concordo em certa medida. Espero que o lado institucional do Expresso sirva para acrescentar pragmatismo a alguns excessos. De qualquer modo, enquanto a opção for entre o determinismo destrutivo e o equilíbrio sensaborão não hesitarei um segundo. Finalmente, há quem insinue que JPC só trocou o Independente pelo Expresso por uma questão de dinheiro. Aqui só não percebo porque é que se insinua. É óbvio.
Acho que não vale a pena citar os restantes esgares de ódio. Tudo redunda no mesmo: não gostam que o tipo seja bom e não gostam que o tipo seja de direita. Eu cá não sou invejoso.

sexta-feira, janeiro 9

EXCITAÇÃO GRÁFICA. Pois é. Aprendi a pôr imagens. A responsável pelo feito é esta simpática senhora. Para ela um muito obrigado. Para todos, votos de um 2004 feliz. Fiquem com a imagem do ano.
HOMENAGEM AO DIA DE REIS.

quinta-feira, janeiro 8

BILL MURRAY Ontem fui ver Lost in translation, da Sofia Coppola, filha do Francis Ford - e prima do Nicolas Cage - e gostei. Mais do que do anterior Virgens Suicidas, demasiado deprimente. Sou um admirador discreto do Bill Murray e não me chocou vê-lo neste papel mais dramático, embora se reconheça com agrado um pouco da sua veia cómica e irónica em algumas cenas em que os próprios figurantes se escangalham a rir. O filme roda à volta da tensão romântica que é criada com a Scarlett "barriguinha sexy" Johansson, criando um par de americanos perdidos na imensa Tóquio e ao mesmo tempo desorientados nas suas próprias vidas. Embora os japoneses saiam um pouco tocados pelo retrato escarninho que é feito no filme, a sua excentricidade nunca conseguirá bater a dos EUA. Conclusão: óptimo filme, boa banda sonora, excelentes interpretações. Já li que Murray é um proto-candidato aos óscares, mas duvido que a influência do clã Coppola seja suficiente. Ele desdenhou: "It's a really unattractive sight to see an actor or actress who really wants an Oscar. And you often see it on the show, you see their faces and the desperation is so ugly. Desperation is not a quality I long for. I'm over the Oscar. Sometimes people win it and you think, 'This can't be true.' It's a little bit of a popularity contest, too." Pode ser dor de cotovelo para um actor que, aos 53 anos, nunca foi nomeado (não é o único) e que acaba a dizer que só se interessa em fazer filmes que as pessoas gostam de ver. Yeah, right... Pormenor: a realizadora, que é também autora do argumento, disse que escreveu a personagem para Murray e que se ele não tivesse aceite desistia do filme.
DOIS AO QUADRADO (MENTAL). Estou abismado com o novo canal da sociedade civil. Nunca mais tinha ouvido falar da coqueluche do ministro Morais Sarmento até que há uns dias, no avião, passei os olhos por um jornal que, aparentemente, também faz parte da dita sociedade civil abnegada que vai «ajudar» o canal a retomar os bons caminhos do serviço público. Depois de perder alguns minutos a reflectir sobre estes exemplos bonitos de solidariedade civil fiquei a saber que o dois, perdão o 2:, é um projecto revolucionário, peregrino e iluminado (isto para resumir 44 adjectivos). Por exemplo, vai começar as emissões à tarde com a transmissão simultânea da Euronews, o que é absolutamente extraordinário. Deduzimos, pois, que o Euronews faz parte da nossa sociedade civil, o que deve ser bom (Europa/news/Portugal... tudo de bom). Depois terá um programa sobre política chamado Parlamento, um de ciência chamado 2010, um de religião chamado 70x7, o Novos Horizontes, o Bombordo etc, etc. Na mesma linha, tenho uma ideia a propor para um programa cultural: Artes e Letras. Não é genial? E que tal fazer uma rubrica de cinema temática e chamar-lhe, mmm.... digamos... Cinco Noites, Cinco Filmes! É giro não é? Já sabem, para o próximo grupo de reflexão contem comigo. É fácil isto. Basta excluir o Acontece, não é?
OS VERDES. Sobre a mais recente palhaçada casapiana, destaco a intervenção da deputada Isabel Castro sobre o assunto, em pleno hemiciclo (!), que de uma penada fez luz sobre todo o assunto. «Eu penso que há um problema grave ãhhhh.... e que esse problema grave ãhhhh.... exige que a justiça funcione». Aí está. O poder de síntese. O estilo acutilante. Crítica, mordaz, não obstante educada e subliminar. Brilhante. Eu voto verde.

quarta-feira, janeiro 7

CABALA EM MARTE. Não sei se repararam, mas as primeiras imagens da Nasa Spirit tinham um ligeiro tom rosa. Agora, passaram a alaranjadas. É inadmissível! Quantas mais provas serão necessárias para demitir o sr.Progurador-Geral? Pergunto, quantas??
AIR LUXOR. Ver uma empresa nacional a trepar a concorrência, copiar bons exemplos estrangeiros e assumir uma postura ambiciosa sabe bem. Era por isso que eu gostava da Air Luxor. Chegou, viu e venceu num mercado que mais parecia de camionagem aérea do que de transporte de pessoas. De tal forma respeitava este invulgar exemplo pródigo que quando vi as televisões noticiarem o «Caos na Air Luxor», há alguns dias, resolvi dar aos senhores o benefício da dúvida (até porque o bilhete estava comprado). E o que vos posso dizer agora, meus caros concidadãos bloggers, depois da experiência traumática de que ainda recupero, é que já fui mais bem tratado com o meu cachecol azul e branco nos estádios da segunda circular. Palavra de honra, há dias em apetece ser terrorista....

terça-feira, janeiro 6

OLÁ! Voltei. E assim que puder vou fazer de emigrante presunçoso para contar o que vi na nossa terra. Até já.
CASA PIA Pela rádio, jornais e internet ouço e leio reacções ao discurso do Presidente da República sobre o processo, todas positivas. Mas muitos destes comentadores e políticos não se escusaram a criticar a anexação de cartas anónimas quando, no fundo, a questão não era essa. Não sou formado nem suficientemente informado em Direito para questionar a opção do magistrado. Mas parece-me que tudo isto foi originado num crime de violação do segredo de justiça. Fontes e meios transmissores devem ser devidamente sancionados. E os outros que reproduzem tais informações igualmente repreendidos. A prática que desde o início se verificou e que tantos repugnaram a certa altura continua sem que tenha sido tomada uma atitude legítima pelas autoridades competentes. Se foram os jornalistas a desencadear este caso, não devem ser os mesmos a arruiná-lo. E se os advogados, magistrados e investigadores querem que se faça Justiça, usem meios legais e leais. O resto deve ser resolvido nos tribunais. Ou devia.

segunda-feira, janeiro 5

EXPRESSO Já tinha constatado uma perda de interesse e um número cada vez maior de queixas e lamentos, apesar de o semanário manter o estatuto de referência. Mas quando podemos colar algumas peças, ficamos imensamente desiludidos. Na edição deste sábado, logo na primeira página, uma "notícia" dá conta da substituição iminente de Jorge Braga de Macedo por Basílio Horta no Centro de Desenvolvimento da OCDE, quando isso não é exacto. O actual embaixador português junto da OCDE dirige aquela instituição desde Outubro, mas em funções diferentes das que exercia o ex-ministro das Finanças. Só hoje percebi que Braga de Macedo vai ser colunista no caderno de economia.
VOAR Dizia um quadro de um banco espanhol há uns anos num almoço que quanto mais voava (fazia várias viagens por semana), mais receio tinha. Perguntei-me porque se daria Deus ao trabalho de dar nozes a certas pessoas. Mas nunca esqueci esta experiência. Não é que a vintena de vôos que faço por ano chegue para me amedrontar. Todavia, a confusão com a Air Luxor que pairou sobre o meu regresso - vim num avião fretado sem ser informado sobre a companhia, espanhola - e o drama que encontrei em França, com a morte de centena e meia de pessoas que apenas desejaram um Natal com mais calor, contribuem para os receios. Se compararmos as estatísticas, morrem de certeza mais pessoas em acidentes de viação por ano. Mas as chances de sobreviver não se comparam.
REGRESSO Pela camada de nuvens que avistei ontem do avião prevejo longas semanas sem ver o sol que iluminou Lisboa durante as últimas duas semanas. Demorámos uns bons 15 minutos a atravessar a espessa almofada de água que paira sobre os gauleses. Astérix e companhia tinham razão em temer apenas que o céu lhes caísse em cima.