sexta-feira, dezembro 12
TERREIRO Revela hoje O Independente que alguns ministérios vão deslocar-se do Terreiro do Paço para a antiga Feira Popular, em Lisboa. Caso se confirme, esta é uma oportunidade perdida para recuperar algumas áreas da capital. Os ministérios, se forem construídos de raíz, podem incorporar serviços adminstrativos hoje distribuídos por vãos de escada e armazéns. Mas são também pólos de renovação urbana e dinamismo económico. Paris tem um caso que merece ser ponderado: o ministério das Finanças, em Bercy, aliado à contrução da Biblioteca Nacional, do outro lado do rio, lideraram uma recuperação destas áreas que, sem ser consensual, tinha um objectivo sério: o reequilíbrio da cidade e a restauração de uma zona industrial em decadência. Além disso, deve-se dessacralizar a ideia que temos dos ministérios e torná-los mais práticos, como o ministério da Ciência francês, que nas suas instalações vetustas inclui uma piscina e salas de ginástica acessíveis aos cidadãos. Lisboa tem inúmeras zonas que precisam de equipamentos para estimular a sua recuperação. E nem é preciso ir longe para ilustrar esta estratégia: o Parque das Nações, um dos cartões de visita de Portugal, teve, embora noutro contexto, o mesmo efeito. Prevendo que do projecto ao terreno vão decorrer longos anos, espero que se reflicta bem nesta decisão e nos benefícios que pode trazer no futuro. E que não se resuma a um exercício de ostentação política ou pessoal.
quinta-feira, dezembro 11
MARKETING POLÍTICO A polémica com a Fundação Minerva trouxe aos olhos deste estrangeirado, privados das televisões portuguesas há largas semanas, o novo look do ministro Morais Sarmento. Se nos lembrarmos que Marcelo Rebelo de Sousa e o António Guterres raparam a pilosidade facial em fases cruciais do seu percurso político, esta era a prova que faltava: não são os lugares de topo que Sarmento almeja. Ou então a moda virou.
NINGUÉM EXPLICA Dizia JPP, num post de 10/12 intitulado “O Governo tem que explicar melhor as suas políticas" que este é um "falso problema. O governo tem é que governar melhor, não 'explicar melhor'. As boas políticas explicam-se a si próprias e as políticas impopulares têm sucesso quando os seus autores têm credibilidade. As pessoas torcem o nariz, protestam, mas, ou acreditam nos governantes ou não. Não há marketing que, a prazo, transforme uma má política numa boa, nem 'explicação' que substitua a confiança."
A sua lógica é correcta: um país bem governado não questiona os decisores. Mas ela não isenta o governo de se esforçar em explicar aos cidadãos porque toma esta opção e quais eram as alternativas. As políticas são normalmente um produto do equilíbrio entre os princípios ideológicos dos governantes e os contrangimentos que estes encontram na sua actividade. E o governo tem a obrigação de esclarecer porque tomou esta direcção, por que é que entende que ela é melhor para o país. Infelizmente, a maior parte das dúvidas e protestos resultam da ignorância - e exactamente aqui o governo tem um papel de explicador. Tem de usar a pedagogia que não aplica precisamente nos textos dos decretos publicados no Diário da República. Finalmente, também discordo da última frase; o marketing é capaz de tudo, principalmente em política.
Por sua vez, o jmf diz que "o problema é que, muitas vezes, se as medidas fossem bem explicadas o povo ainda ficava mais zangado com o governo." Talvez. Eu arrisco.
A sua lógica é correcta: um país bem governado não questiona os decisores. Mas ela não isenta o governo de se esforçar em explicar aos cidadãos porque toma esta opção e quais eram as alternativas. As políticas são normalmente um produto do equilíbrio entre os princípios ideológicos dos governantes e os contrangimentos que estes encontram na sua actividade. E o governo tem a obrigação de esclarecer porque tomou esta direcção, por que é que entende que ela é melhor para o país. Infelizmente, a maior parte das dúvidas e protestos resultam da ignorância - e exactamente aqui o governo tem um papel de explicador. Tem de usar a pedagogia que não aplica precisamente nos textos dos decretos publicados no Diário da República. Finalmente, também discordo da última frase; o marketing é capaz de tudo, principalmente em política.
Por sua vez, o jmf diz que "o problema é que, muitas vezes, se as medidas fossem bem explicadas o povo ainda ficava mais zangado com o governo." Talvez. Eu arrisco.
LES BITALES Falando de rádio: para além de desconhecer a maioria das músicas que rodam nas ondas hertzianas francesas - por opção, a minha cultura de música comercial foi sempre limitada -, o desafio aumenta quando o locutor tenta apresentar o grupo ou artista anglo-saxónico com o sotaque especial que caracteriza este povo.
SONS. Como podem ver, acrescentei uma chamada para estações de rádio nos links aí do lado. A lista é pequena, para já, porque é difícil separar o trigo do joio no meio de tanta playlist e estação banha da cobra. Começo pois com a inevitável TSF (ligação directa à emissão); a XFM britânica (que inspirou a nossa velhinha Xis e continua sensacional); a BBC4 (para os senhores da rádio ouvirem e copiarem o que puderem); e a WBGO, com fantástico jazz americano (que é, afinal, a razão que me levou a fazer isto. Obrigado André). Quaisquer sugestões são bem vindas, mas entendamo-nos: a gerência reserva-se ao direito de admissão.
quarta-feira, dezembro 10
RODINHA DANÇANTE. É uma das facetas mais originais do homolusos e, injustamente, uma das que menos atenção tem merecido por parte dos nossos antropólogos: a «rodinha dançante». Como sabem os mais versados nos temas noctívagos, a rodinha (como é vulgarmente conhecida) é um consagrado ritual espontâneo que esta espécie põe em prática sempre que se aproxima de uma pista de dança. Apenas três elementos são necessários para dar início ao fenómeno, mas é de admitir que o grupo aumente até às duas dezenas, consoante o grau de amizade ou parentesco entre os presentes. No que diz respeito ao comportamento, há um conjunto de normas tacitamente aceite entre os jovens homolusos, que obriga cada um deles a assumir uma postura vigilante em relação aos seus pares. Assim, uma ida mais prolongada ao bar, uma conversa com algum outsider, ou mesmo um olhar que ultrapasse o diâmetro estabelecido, será sempre alvo de um comentário correctivo.
A experiência de estrangeirado permite-me agora acrescentar que o ritual está de tal forma impregnado nas gerações mais novas que as próprias comunidades homolusas espalhadas pelo mundo mantêm-se firmemente ligadas à tradição. O que demonstra um grande arrojo, obviamente, já que ninguém mais se poderia lembrar de tal coisa.
A experiência de estrangeirado permite-me agora acrescentar que o ritual está de tal forma impregnado nas gerações mais novas que as próprias comunidades homolusas espalhadas pelo mundo mantêm-se firmemente ligadas à tradição. O que demonstra um grande arrojo, obviamente, já que ninguém mais se poderia lembrar de tal coisa.
INTERNET 169 países estão representados na Cimeira Mundial da Sociedade de Informação em Genebra. Na agenda está a redução da diferença no acesso à Internet entre países do Norte e do Sul - ou seja, ricos e pobres. O Libération faz a sua antevisão: L'Internet mondial se réunit pour accoucher d'une souris.
ECONOMIA vai recuperar graças ao Natal. Os finais de tarde nas Fnacs são um pesadelo. Nas prateleiras multimédia, colectâneas e packs de CD e DVD convidam ao consumo. Na secção dos livros, as pessoas pegam quase sem olhar. No andar dos aparelhos electrónicos, os leitores de DVD estão empilhados em caixas, que as pessoas agarram como se fossem pacotes de rebuçados. Eu consegui escapar-me com um tinteiro para a impressora, mais barato 10€ que na loja aqui do bairro.
terça-feira, dezembro 9
segunda-feira, dezembro 8
NATAIS ORIGINAIS. Enjoam-me profundamente as campanhas de solidariedade que a nossa comunicação social inventa nesta altura do ano para dar um ar da sua graça social. Desde aquelas festas fossilizadas para desgraçadinhos de prisões e hospitais, até aos miserabilistas peditórios «Ajude porque é natal e portanto pronto, é bom», é tudo muito pobre. Por isso, qual parolo (outra vez), fiquei deslumbrado com a campanha de Natal do Independent: um leilão com a prata da casa. Ou seja, para juntar umas massas, o jornal vende aos leitores um conjunto de lotes, cujo único valor é poder conhecer, trabalhar ou acompanhar alguns dos funcionários e colaboradores da empresa. Exemplos: Viajar por todo o país com o famoso globetrotter de viagens, Simon Calder; convidar os amigos para um jantar em casa que o especialista em gastronomia irá fazer in loco; acompanhar o especialista de vinhos a uma prova de degustação; ter um cartoon pessoal feito pelo cartoonista Dave Brown; acompanhar um dos críticos de música a um concerto, com passagem pelos bastidores etc, etc, etc. Há mais de 30 lotes e todos eles rendem umas boas centenas de contos que vão direitinhos para uma instituição de caridade. Haverá sempre «contingências» e um «contexto próprio» que tornam estas coisas impraticáveis no nosso páis. Mas que são giras são. E têm uma grande vantagem: dão dinheiro.
sábado, dezembro 6
VÉU ISLÂMICO O presidente Chirac rejeitou ontem a ideia de discriminação positiva a favor dos imigrantes avançada pelo ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, que levou assim um bigode do seu superior. A discussão faz-se a propósito da comunidade magrebina e do uso do véu islâmico na escola. Chirac ainda não se pronunciou sobre o desejo da direita e dos socialistas de criar uma lei que regule os sinais religiosos nos estabelecimentos de ensino e proteja a laicidade da Educação e da República. Pessoalmente, sou contra esta forma de discriminação das mulheres muçulmanas - que devem poder, se o desejarem, usar o véu, mas sem que isso as ilibe de frequentar as aulas de ginástica e os estudos como os restantes alunos. Não tem necessariamente de ser uma afirmação política, como afirmam alguns políticos. Nesse caso, que se diria se as jovens portuguesas resolvessem deixar crescer os pêlos para reivindicar os direitos dos tugas, que são a maior comunidade estrangeira em França? Incluiam o direito à depilação na Constituição? Portuguesas, insurjam-se! Em nome de todos os portugueses, queimem as gillettes e deitem fora as cêras! E assumam o buço lusitano!
POSTAL DEFICIENTE Um leitor - e bastou um - chamou a atenção para a incorrecção do postal sobre os deficientes. Dou-lhe obviamente razão: a paralisia cerebral provoca problemas motores que torna estas pessoas beneficiárias da eliminação das barreiras arquitectónicas nos edifícios e espaço urbano. E que não deve ser confundida com a deficiência mental. O comentário foi discriminatório. Uma graçola própria de conversa de café. Infelizmente, este bloguista nem sempre é reflectido nem politicamente correcto.
quinta-feira, dezembro 4
OBITUÁRIOS. Ocupam duas, três páginas dos jornais ingleses. Todos os dias. Textos compridos, invulgarmente compridos, prestam homenagem a vidas que nos parecem sempre notáveis. Às vezes são assinados, outras vezes não, mas são sempre bem escritos. Impecavelmente escritos. Talvez seja isso, talvez seja uma estranha vontade de me associar ao respeito por alguém (que na maior parte dos casos nunca ouvi falar), talvez seja a curiosidade de saber quem é o homem ou a mulher a que um jornal oferece tanto espaço sem cometer a ousadia de pedir um anúncio em troca. Sinceramente, não sei. Sei que é frequente dar por mim a meio de uma destas prosas. Estou inclinado a pensar o melhor de mim, como é óbvio: que leio por achar que se deve dar tempo às últimas homenagens. Imagino também que isto explique a vontade dos outros leitores em fazer o mesmo. E a coragem dos jornais em abdicar de tanto espaço publicitável. Os nossos não o fazem e é pena. Sobretudo porque é um gesto bonito. De honra.
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