sábado, dezembro 6
POSTAL DEFICIENTE Um leitor - e bastou um - chamou a atenção para a incorrecção do postal sobre os deficientes. Dou-lhe obviamente razão: a paralisia cerebral provoca problemas motores que torna estas pessoas beneficiárias da eliminação das barreiras arquitectónicas nos edifícios e espaço urbano. E que não deve ser confundida com a deficiência mental. O comentário foi discriminatório. Uma graçola própria de conversa de café. Infelizmente, este bloguista nem sempre é reflectido nem politicamente correcto.
quinta-feira, dezembro 4
OBITUÁRIOS. Ocupam duas, três páginas dos jornais ingleses. Todos os dias. Textos compridos, invulgarmente compridos, prestam homenagem a vidas que nos parecem sempre notáveis. Às vezes são assinados, outras vezes não, mas são sempre bem escritos. Impecavelmente escritos. Talvez seja isso, talvez seja uma estranha vontade de me associar ao respeito por alguém (que na maior parte dos casos nunca ouvi falar), talvez seja a curiosidade de saber quem é o homem ou a mulher a que um jornal oferece tanto espaço sem cometer a ousadia de pedir um anúncio em troca. Sinceramente, não sei. Sei que é frequente dar por mim a meio de uma destas prosas. Estou inclinado a pensar o melhor de mim, como é óbvio: que leio por achar que se deve dar tempo às últimas homenagens. Imagino também que isto explique a vontade dos outros leitores em fazer o mesmo. E a coragem dos jornais em abdicar de tanto espaço publicitável. Os nossos não o fazem e é pena. Sobretudo porque é um gesto bonito. De honra.
DEFICIENTES Santana Lopes afirmou ontem a prioridade da autarquia que preside em eliminar as barreiras arquitectónicas nos edifícios lisboetas que prejudicam o movimento dos deficientes motores. Bravo. Deixemos de lado o facto de estarmos a três semanas do final do ano Europeu das Pessoas com Deficiência. O que me intriga é que foi feito um acordo com a Associação de Paralisia Cerebral. Com todo o respeito: neste caso, estamos a falar de que barreiras?
POSTIGA. Finalmente, o puto marcou um golo. O que não sendo muito para ele, para mim ajuda bastante. O dicionário futebolístico desta gente, no capítulo português, começava em F, de Figo, e acabava em R, de Ronaldo. Com a agravante deste último ser conhecido por «white boots man», o que... enfim! Cada um tira as conclusões que quiser. O que interessa é que agora vão ao P, de Postiga. E de Porto, se não se importam. Porque a malta do Norte é assim: não esconde o orgulho dos seus.
CANAL SOS Vi dois minutos do canal SMS, que substitiu a Sic Notícias na internet. Se calhar não fiquei tempo suficiente para formar uma opinião sustentada e justa, mas aquilo é mesmo uma m****, não é? Admira-me que demore um ano para compensar o investimento, como disseram os responsáveis da PT. Ou melhor, fico espantado se aquilo durar um ano.
quarta-feira, dezembro 3
PASOLINI Ontem fui ver Comizi d'amore, um documentário de 1965 do Pier Paolo Pasolini. É fácil resumir: de norte a sul, de microfone em punho, foi perguntando a miúdos e graúdos, homens e mulheres, operários e intelectuais, o que pensam da sexualidade, do casamento, do divórcio. As respostas são cómicas, próprias de uma sociedade fechada e religiosa. Episódios: um miúdo garante que é a cegonha que traz os bébés e é Deus que os põe no cesto ao lado da mãe - porque a cegonha não tem mãos. Um agricultor que acha que a mulher deve ter menos direitos que o homem "não é preciso muito, só um bocadinho, não muito, só um bocadinho". A jovem que se atira ao realizador e depois diz que é tímida. O adolescente sardento que diz resolutamente que a família é a base da sociedade e que o sexo não lhe interessa, que é secundário. E um Pasolini provocador com questões sobre os "invertidos sexuais", sendo ele próprio homossexual. No final, temos um breve retrato da Itália dos anos 60, onde também intervêm Alberto Moravia e Oriana Fallaci. Irreconhecível hoje, annus Berlusconnis, em que a televisão explica tudo, tintin por tintin. Faltou uma questão: o aborto.
CORTE DE CABELO Não páro de olhar para o espelho. Hoje fui à tosquia e confirmou-se a habilidade do meu barbeiro. É certo que não existe a mesma empatia que partilhava com o velho Cruz, do jardim de Sacavém. Não troco palavra com o senhor e no final pago 15 euros, o triplo do que pagava em Portugal. Mas aqui é mais difícil sair da cadeira com pente zero, como aconteceu certa vez. Outra diferença: por cima do chapeleiro não estão Ginas nem Tânias mas uma mini-colecção de BD.
MITOS. Leio um anúncio imobiliário de «fantásticos apartamentos perto de Londres a preços excepcionais». Nem sequer no centro da cidade, portanto. As fotografias parecem-me razoáveis, mas não mais que isso. Detenho-me alguns segundos a olhar para o preço. «A partir de 200.000 libras», ou seja, qualquer coisa como 90 mil contos. Por um belo T1 nos arredores! Depois disto é inevitável pensar na alarvidade apregoada por muita gente que vive nos melhores bairros da nossa terra: «É o metro quadrado mais caro da Europa». É, então não é... Quadradas são as ideias.
ABORTO. É difícil livrarmo-nos de raciocínios apriorísticos quando falamos de temas tão delicados. Consoante o lado político, social ou religioso, já escolhemos um lado da barricada e somos obrigados a defendê-lo com duas pedras na mão. Afinal, é a nossa própria concepção de vida que está em causa. Por isso respeito quem consegue ultrapassar o cinismo (o expediente comum de todos os ignorantes) e tem a coragem de fazer assentar a poeira para que se vejam todos os argumentos. Foi isso que o Barnabé e o Comprometido Espectador fizeram nestes últimos dias. Começaram por onde todos começam, mas acabaram numa das mais interessantes discussões sobre o Aborto. E assim convenceram-me que os blogues valem a pena.
BOMBEIRO MORTO, BOMBEIRO POSTO. Pelo menos uma dúzia dos bombeiros nova-iorquinos que sobreviveram às chamas e às derrocadas do 11 de Setembro resolveram deixar as respectivas mulheres. Motivo: foram dar consolo às viúvas dos que tiveram menos sorte. Notável! Não há como ler os bons tablóides para saber as boas histórias.
NAVALÊS. Imagino como o vocabulário mundano tem melhorado substancialmente graças às muitas misérias que nos preenchem os dias. Primeiro foi o léxico jurídico com os «habeas corpus», as «memórias futuras» e afins expedientes penais. Agora entramos num terreno ainda mais desconhecido: a linguagem naval. Mais um petroleiro na costa e os jornais já se dão ao luxo de falar no «alerta provocado por novo monocasco». Monocasco que, como toda a gente sabe, é... aquele tipo de... casco.... mono... Enfim, toda a gente sabe!
terça-feira, dezembro 2
INTERVALO no anti-americanismo: ultrapassando um pouco as fronteiras francesas, sobrevoando Portugal e o Atlântico até Nova Iorque, registo tardiamente a inauguração, no domingo, da praça Joey Ramone, na esquina da 2nd Street com a Bowery, em Manhattan. Para aqueles que desconhecem os Ramones, só o posso lamentar.

CONFESSO que nunca li um livro do Harry Potter. Vi o primeiro filme e achei aborrecido. Mas quando tiver filhos não me importo de incentivar esta febre de ir comprar o novo e mais recente capítulo às tantas da noite. Hoje, aqui em Paris, várias livrarias vão estar abertas, vão recriar nos espaços em frente cenários das histórias e vão ter animações durante a noite. É nestas alturas que eu aprecio uma grande capital. Aqui tudo é em grande porque o número de pessoas assim o justifica. Será que se vai passar alguma coisa lá em baixo?
TÍTULOS do Libération são uma inspiração: Le neveu de Disney fait un départ animé. Ou ainda Hugo Chavez s'accroche à son siège éjectable. Anglófilos, beat this!
segunda-feira, dezembro 1
DIA MUNDIAL DA LUTA CONTRA A SIDA demasiado asséptico. Fotografias de crianças a sorrir, debates de especialistas, responsáveis de instituições e ONG e ministros, acrobacias de aritmética entre milhões de doentes e milhões de dólares. Nem um testemunho de um doente, de avó de criança seropositiva ou de um recém-contagiado. Vinte e tal anos depois, acho que ficaram pelo assessório e se esqueceram do essencial: o sofrimento das pessoas e as vidas vividas a conta-gotas.
Gado no Daily Nation (Quénia).
SPECTATOR. Para todos os anti-americanos que juram a pés juntos o seu amor aos Estados Unidos. O teste está aqui. Garanto que é tempo bem gasto.
EU AVISEI.... que a Big Conversa inventada pelos trabalhistas tresandava a manipulação. O que não esperava, confesso, é que o Telegraph desmontasse a coisa tão rapidamente. Dois dias depois de a campanha arrancar, já tinham enviado um punhado de mails com ataques violentos às principais políticas do governo inglês. A resposta, claro, foi nenhuma. Os ditos mails foram olimpicamente ignorados pelos gestores do site que nem se dignaram a explicar porquê. E o pior nem é isto. O Telegraph conseguiu falar com algumas das primeiras pessoas que participaram no inquérito. Resultado: «tiraram a parte em que eu acusava o ministro...»; «não vejo as minhas palavras sobre a guerra do Iraque...»; «omitiram todas as opiniões sobre política externa...». Enfim... a democracia participativa no seu melhor.
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