sábado, novembro 29

BLOGALIZAÇÃO. Vamos fazer um teste. Se eu puser a morada do blog aqui, algum dos nossos simpáticos visitantes acabará por visitar o autor do mesmo. Este, por sua vez, depois de consultar o site meter ou quejando instrumento de vaidade, retribuirá o favor e voltará cá a casa. Chegado aqui, depara-se com a pergunta que se impõe: Onde é que arranjaste os textos do Seinfeld, pá?
HORÁRIOS. Tenho hoje uma consideração especial pela malta das rádios. Que os tipos faziam turnos já sabia mas, na verdade, nunca tinha pensado bem no assunto. Ter de trabalhar de madrugada, acordar para debitar prosa para a antena às cinco, seis, sete da manhã, deixar os lençóis quentes e agarrar o batente... isto é tarefa de gente corajosa meu povo! Não deixa de ser estranho pensar: que mais se pode fazer àquela hora? Talvez blogar... (estamos esclarecidos, JMF?).
JACQUES CHIRAC faz hoje 71 anos. O número está cada vez mais próximo dos mais de 80 por cento com que foi eleito no ano passado à custa da esquerda, que teve de usar luvas e tapar o nariz para humilhar Jean-Marie Le Pen. Curioso que tenham sido dois "dinossauros" a disputar a segunda volta. Mas tudo isto faz sentido porque durante a campanha, o jovem Lionel Jospin, que não vinha com um balanço de governação brilhante, decidiu atacar o seu velho rival por este prisma, dizendo que lhe faltava energia e estava "envelhecido, usado". Gaffe total, com consequências imediatas nas sondagens e mais tarde nas urnas: os reformados nunca lhe perdoaram. Esta semana, a idade de Chirac volta à baila, não só pelo seu aniversário mas também porque uma fotografia do Paris-Match confirmou que o presidente francês usou um aparelho auditivo, e que, portanto, tem problemas de audição. A aparentemente pequena "deficiência" não tem a mesma dimensão que a doença fatal de Miterrand. E não implica que as suas capacidades estejam afectadas. É apenas uma prova do curso natural da vida. E em França, que se saiba, ainda não se inventou a poção da eterna juventude.

PS: Este senhor não tem o mesmo significado de Mário Soares (MS) em termos de combate político, mas regista-se o longo percurso que culminou no topo da hierarquia institucional francesa. Mas eis que, a três anos das eleições presidenciais, alguns chiraquistas insistem na ideia de um novo mandato, o terceiro, que é permitido em França, ao contrário do que sucedeu há alguns anos em Portugal a propósito de MS. Mas é também do seu partido que também saem os críticos: o ministro Nicolas Sarkozy, o mais popular do governo e o que tem mais hipóteses de lhe tirar a cadeira.

BIG CONVERSA. Tony Blair lançou ontem a «maior consulta pública alguma vez feita no Reino Unido». É pelo menos assim que o partido trabalhista anuncia a coisa e vendo o anúncio de televisão (altamente high-tech e cafona) até é de acreditar. A «Big Conversation» (não se lembraram de nada melhor) tem um objectivo muito nobre: pedir aos cidadãos que se pronunciem sobre o Estado da Nação. Por mail, telefone, cartas anónimas, pombo correio, o que quiserem. O importante é que muita gente responda à infinidade de perguntas que o Labour inventou para preencher 77 páginas de um prospecto político. Para quê? Para nada. É a habitual manobra falhada a que recorre qualquer líder de um governo/partido/empresa/família quando sente que está a perder as rédeas do poder. A velha estratégia do «a falar é que a gente se entende». O problema é que o poder muito dificilmente se recupera, sobretudo porque quem o perde nunca gosta de assumir as razões que levaram a isso. É uma questão de natureza humana, suponho. Por isso acontece isto: inventam-se estratégias para convencer as pessoas que tudo vai mudar e que «a vossa opinião conta» (sic). É perverso.
EURO 2004. Enche páginas e páginas de todos os jornais ingleses de hoje. O sorteio de amanhã é o pretexto, como é óbivo. As equipas, os estádios, as cidades, o turismo... está tudo lá. Estamos a falar de bichos que, juntos, vendem mais de dois milhões de exemplares. E que dizem coisas como «reserve já, porque vai esgotar tudo. A partir de amanhã começa a corrida aos bilhetes.» Vai ser bonito, vai.

sexta-feira, novembro 28

Deven no Le Mauricien (Port Louis)

HOJE O CÉU ESTEVE AZUL. Não é uma metáfora nem o início de um post introspectivo. É um facto. Uma notícia.
O PERÚ aterrou em Bagdad em segredo e comeu junto às tropas norte-americanas. "Estava à procura de uma refeição quente", disse. Os soldados ficaram tão supreendidos que, em vez de o espancar, como têm prometido nos últimos meses, bateram palmas e riram nervosamente, deixando cair algumas lágrimas.

A viagem a Bagdad foi feita com preparativos dignos de um filme policial. Aos poucos jornalistas que acompanharam o presidente dos EUA foram confiscados telemóveis, pagers e outros instrumentos electrónicos para que não dessem com a lingua nos dentes. Mas o que é que eles pensam que os jornalistas são?

MANIFESTO. Estrangeirados de todo o mundo, uni-vos! A revolta é imensa e plenamente justificada. Alienaram-nos o único canal decente que podíamos ver à distância pelos nossos humildes computadores. Sem aviso, sem desculpas, a SIC Notícias desapareceu. Assim, PUFFF! De uma assentada. Foi-se a leitura da sentença da Moderna, foi-se o resumo do Porto, foi-se a Bárbara Guimarães, foi-se... outras pessoas, vai-se o Expresso da Meia Noite. Pior: o capital é tão insensível que no lugar do famigerado canal põe-nos uma coisa estranha chamada canal SMS!!! Isto é uma provocação, camaradas. Só pode ser. E aquelas burguesas histéricas que aparecem a gritar «já começou!» são um teste à nossa resistência. À nossa consciência de classe oprimida. Por isso vos digo: mails ao alto. Ataquemos a caixa de correio dos ricos e poderosos. O espectro do estrangeirismo ronda a Europa.
EU, BRUTUS. Há dias, num prazenteiro almoço com conterrâneos, um dos presentes contava as experiências da sua recente viagem de seis semanas pela Índia. Deformação profissional fez-me arrastar a conversa das paisagens para as perguntas mais práticas.
- Mas tu não trabalhas?
- Trabalho. Tirei quatro semanas de férias e as outras duas disse para eles não me pagarem. Nem chatearem...[risos]
- Áh. És freelancer...
- Não! [semi-irritação] Expliquei-lhes que queria ir viajar e pronto.
- Mmmm.. Agora que dizes isso... por acaso já ouvi umas histórias de uns tipos ingleses que vão passar seis meses fora e se põem a viajar pelo mundo. Assim, calmamente. Deixam tudo para trás e catrapumba. Mas as empresas não dizem a estes gajos pra ficarem na Etiópia, no Vietname ou no raio que o parta para onde eles quiserem ir fazer ioga?
- Não pá! [indignação] Se as empresas precisam deles só têm a ganhar com isso. Primeiro, porque o mantêm. O que neste mercado é sempre uma coisa difícil. Depois, porque sabem que esse tipo de experiências só podem valorizar um gajo.
- ... pois... claro.... Este molho está óptimo...

quinta-feira, novembro 27

VIAGENS. Proposta da semana: Turquia. Sem sombra de dúvida. É tão arriscado como estar no centro de qualquer capital europeia. É um país fabuloso. Com gente fantástica. Com hóteis de excelente qualidade que devem estar todos vazios e a fazer preços da chuva. Sem ponta de ironia: que melhor forma há de ajudar os turcos a ultrapassar este pesadelo e reduzir o terrorismo à sua mínima expressão?
LINKS. Inventámos a lista de «nomes próprios», como é óbvio, para ver se conseguíamos angariar mais visitas turísticas aqui à paróquia. Aliás, nem sei se inventámos, mas pelo menos nunca tínhamos visto. Agora cria-me um dilema. Queria aconselhar um blogue de autor anónimo mas não tenho sítio onde pôr o link. Teremos de arranjar uma solução, está visto, mas ainda não será agora. Para já, fica a referência ao imprescindível classe média.
PLANTU no Le Monde

AZNAR É impressionante a admiração que a direita francesa tem pelo primeiro-ministro espanhol. Hoje, o diário Le Figaro, que, como se sabe, encosta à direita, tem um editorial onde distingue na escolha de Valência para receber a Taça da América uma consequência e reconhecimento do dinamismo do país. "Après dix ans de croissance ininterrompue, l'Espagne nous donne une leçon d'économie." Logo a seguir vem a tacadinha: "Certes, elle a largement bénéficié des transferts de fonds européens (leia-se: dinheiro francês), mais cela ne suffit pas à expliquer sa performance." E conclui: "Mais ce pays n'est plus seulement une destination touristique, ni même un paradis nautique où il faudra conserver sur nos rives la Coupe de l'America. Sans écouter l'Espagne, l'Europe ne se fera pas." Teremos lido bem? A França disposta a escutar alguém sobre a Europa?

Nos últimos dois anos, José Maria Aznar esteve presente diversas vezes em comícios e conferências organizados pela direita. Aí nota-se o seu estatuto de estrela, quando o volume de aplausos aumenta significativamente antes e depois das suas intervenções. Mais ruidosos que as ovações a Durão Barroso, que arranha muito melhor a lingua francesa.

POLÍTICA E MEDIA (Ou como fazer um título piroso com leitura garantida). Alastair Campbell é tido por ser um dos melhores spin doctors que passaram por Downing Street. É também a única vítima conhecida das armas de destruição maciça do Iraque, já que se teve de demitir do governo de Blair quando começava a ficar claro, no inquérito Hutton, que foi um dos principais responsáveis pela brilhante ideia de apimentar o relatório dos serviços secretos com factos inspirados na Guerra das Estrelas. A verdade é que, mesmo assim, o senhor goza de uma reputação impressionante entre os jornalistas, ao ponto de alguns acharem que o primeiro-ministro, sem ele, está como um naco da melhor vaca num aquário de piranhas. Ontem, Campbell foi dar uma palestra à Foreign Press Association. E eu, que já estava a ficar contagiado por tanto deslumbramento, fiquei irremediavelmente desiludido. Então não é que o cavalheiro resolveu assumir aquela postura de virgem ofendida de que «os jornalistas tratam muito mal os políticos»; «arruinam o respeito das pessoas»; «fazem com que a política fique sem os melhores profissionais».... Não há paciência. Eu a contar com um Kissinger refinado e sai-me um Ramonet encapotado.

quarta-feira, novembro 26

CIVILIZAÇÃO. A rainha de Inglaterra foi hoje anunciar ao Parlamento as linhas gerais da política do governo para a próximo ano. Uma das quais, nem sequer a mais importante, prende-se com o alargamento de direitos para os casais homossexuais. A rainha de Inglaterra, repito, foi a porta-voz da medida. A oposição conservadora já tinha dito que concorda plenamente. E o Telegraph, bastião da imprensa de direita, fez ontem este editorial:

Gay couples should be equal under the law

The time has come to give homosexual couples some legal recognition.

It has frequently been lamented, with good reason, that the institution of marriage is in crisis as divorce rates soar to levels unimaginable a generation ago. There are many reasons for the current disinclination to marry and remain married. These include the continuing fall-out of the sexual revolution of the 1960s; our contemporary selfishness and lack of fidelity; the choice that many women make to delay marriage and children for the sake of their career; as well as government policy, which no longer offers real financial incentives to married couples.

Co-habiting heterosexual couples can choose to marry, and the question of restoring "pro-marriage" financial arrangements can be addressed by tinkering with tax and social security regulations. In the Queen's Speech tomorrow, the Government is expected to propose that homosexuals be allowed to become "registered civil partners" and assume some of the same rights, and responsibilities, as a married couple. The details of the proposed legislation remain vague, but the focus of the changes would be in the areas of inheritance and pensions, and the granting of the right for a civil partner to act as next-of-kin in times of illness.

There is no good reason why a homosexual man or woman, bereaved after decades of faithful union, should face the additional burden of selling a shared home to meet death duties when a partner dies. To state this truth is a simple matter of what is just and practical. It is perverse that existing law should actively discourage any two people in a lifelong relationship from enjoying legal and financial security. Michael Howard was wise to signal that Conservative MPs would have a free vote on the issue.

We understand the reservations several Church leaders have expressed about extending this civil union into some sort of pastiche gay marriage, which would be in breach of so much Judaeo-Christian teaching. But that is a religious issue. What is proposed is a civil matter. It is wrong to oppose a sensible and modest civil reform for fear of where it will ultimately lead. Allowing gay people to affirm their relationship within a civil contract does not undermine the institution of marriage. It might even reinforce it. We will all benefit from greater recognition of stable relationships, of whatever kind.
AMERICA'S CUP II Ganharam os espanhóis. Vá, levem lá a bicicleta.
AMERICA'S CUP A decisão em directo aqui. Pelo menos 15 mil desempregados e a ministra das Finanças vão estar a fazer figas.
PORTUGAL País com excelente localização entre a Europa e os EUA, a poucos km da Espanha. Fronteiras seculares e muitos monumentos históricos. Temos praias de norte a sul. Gente tranquila e acolhimento simpático. Óptimo espaço para festas de casamentos, baptizados, almoços e jantares de empresas, cocktails e festas de Natal. Excelentes condições para exposições mundiais, campeonatos de futebol e eventos náuticos. Estacionamento próprio. Facilidades de pagamento.
CARRILHOMANIA II. Prometi a mim mesmo que não faria provocações aqui. Como foi a mim mesmo, portanto, não vou trair ninguém. De resto, nem é preciso dizer muito, porque a causa deles fala por si. Confesso que ainda não consegui ler todos os textos, mas assim que recuperar o fôlego (fiquei na parte do chumbo) vou continuar a estudar atentamente. ÁH e.. já agora, também quero ser uma referência na esfera bloguística!