terça-feira, novembro 25
INTERNET Diz-me quem esteve cá que há quatro anos a França mal sabia o que eram as novas tecnologias. A ilustração poderia ser feita com as imagens de TV, que eu não vi, da cara de susto do Jacques Chirac na inauguração da ultra-moderna Biblioteca Nacional ao dizerem-lhe para pegar no rato. A contra-informação chamou-lhe "mulot", que em português é o arganaz, ou rato-dos-campos. Justiça seja feita, os franciús deram a volta e hoje não só a maioria das empresas e instituições têm sites bonitos como eficientes. Um exemplo é o do Parlamento onde, além de uma ligação directa ao canal de TV, temos acesso aos textos das discussões feitas em plenário e nas comissões parlamentares. Quando há novas propostas de lei, relatórios ou outras novidades são anunciadas na newsletter electrónica. Isto ainda não é democracia participativa, mas contribui para a transparência e credibilidade do sistema representativo.
RAFFARIN CHANTE LA CROISSANCE POUR LA FAIRE TOMBER DU CIEL O Libération tem uns títulos fabulosos, à altura d'A Bola. Por mim, o artigo não precisava de texto. A síntese é uma ciência.
ELOGIO. Estou tão contente pela mini-avalanche de visitas nestes últimos dias [vaidade o caraças. Para escrever coisas que ninguém lê já me bastam outros feudos] e tão ciente que tudo se deve à excitação da novidade, que tenho de aproveitar a oportunidade para anunciar que este senhor pode ser nomeado meu porta-voz. Mesmo quando discordo dele. Deixem-me citar a melhor da semana: «Ainda aturei professores que eram museus intelectuais itinerantes, expondo incessantemente os três livros que leram na década de 60». Isto é que é poesia meus amigos!
PORTUGAL NA CEE. Estava eu entretido a tentar distinguir as substâncias verdes de uma tarte congelada quando a palavra «Lisbon» me puxou os olhos para a televisão. No fim do noticiário do almoço, já em período de fait-divers, a ITV resolveu armar-se em Euronews e fazer uma espécie de sessão «No Comments» com as imagens da nossa capital. Mais concretamente, com um autocarro de pernas para o ar em plena baixa pombalina. «Estranho», comentou o jornalista. Mas só para ele. A única coisa de inédito na notícia é, talvez, o azar de um autocarro ter afocinhado numa das crateras da baixa. De resto, quem se lembrar das imagens dos túneis ali por baixo, daquelas fissuras quilométricas e do aspecto podre daquilo tudo, só poderá ficar espantado por a linha inteira da Carris ainda não ter ido parar à Galiza.
CORRECÇÃO TARDIA: Leitora atenta (amiga, portanto) alertou-me que, afinal, o dito acidente aconteceu em Campolide, não na baixa. É pena. Parece que perdi um argumento para dizer que as obras do metro no Terreiro do Paço são uma vergonha nacional. Enfim, fica para outra oportunidade.
CORRECÇÃO TARDIA: Leitora atenta (amiga, portanto) alertou-me que, afinal, o dito acidente aconteceu em Campolide, não na baixa. É pena. Parece que perdi um argumento para dizer que as obras do metro no Terreiro do Paço são uma vergonha nacional. Enfim, fica para outra oportunidade.
CARTA ABERTA. Aos Exm.os Directores dos canais de televisão nacionais.
Caros senhores: A emigralhada, como sabeis, é uma massa volumosa e dispersa, maioritariamente composta por falantes portugueses, com grande apego às desgraças que ficaram para trás. Uma vez que a maior parte tem acesso aos ordenados mínimos dos países civilizados, é de esperar que a bolsa seja suficientemente folgada para poder construir casas com telhados pretos e portões dourados durante as migrações de Agosto. À excepção desse mês, no entanto - já explorado pelos bancos com as famosas contas-travesseiro (põe cá tudo que a gente dá-te o mesmo daqui a 25 anos) -, proponho que sejam os senhores a lucrar o resto do ano. O esquema é simples: permitam que a porcaria dos noticiários e de alguns programas de maior audiência sejam vistos online e em directo. Depois, é só medir os acessos e passam a cobrar publicidade nesse serviço. Mais: como isso implica o fomento da utilização da banda larga aposto que deve haver pelo menos uns 400 subsídios europeus para empocharem. Acham pouco? Não imaginam a felicidade que davam aos estrangeirados.
RUGBY. Já não bastava o cricket, as transmissões em directo de snooker e demais bizarrias desportivas, agora, sempre que ligo a televisão, tenho de gramar com rugby em doses cavalares. E o rugby, como toda a gente sabe, é aquele desporto muito bonito, muito elegante e, sobretudo, muito educativo. Que dá gosto ver em momentos muito especiais. Tão especiais, de resto, que nunca tive a sorte de viver um. O facto é que, para grande infelicidade minha, a selecção cá dos quintos acabou de ganhar o campeonato mundial da coisa, na Austrália, e parece que os heróis estão prestes a aterrar com a repectiva taça. Os urros de contentamento, entretanto, já se ouvem por todas as esquinas onde haja um letreiro luminoso. Só de ver a festa começo a imaginar o que diria a um filho que tivesse intenção de seguir estas lides: «Mas porquê??? Com tantas coisas melhores para fazeres da vida, meu filho... Não gostas de droga, por exemplo?»
segunda-feira, novembro 24
FRÈRES COEN Há poucos valores seguros. O Clint Eastwood é um deles. O Woody Allen já pouco aquece. Ultimamente, o Zatoichi do Takeshi Kitano já me tinha desiludido. Agora foram os irmãos Joel e Ethan Coen. No cinema tento ser o máximo fundamentalista. Por uma questão de princípio, ontem recusei-me a ver o fim da saga Matrix (só vi o primeiro) e separei-me da Paula e do André. No meio das várias alternativas do multiplex MK2 da Biblioteca Nacional lá dei o benefício da dúvida a George Clooney e Catherine Zeta-Jones e escolhi Intolerable Cruelty. Em Lisboa teria certamente ido ver, por falta de escolha. Mas aqui não há desculpa. O filme é chato, previsível, completamente normal. Não vi a tal "ironia" sobre o amor que as críticas falavam. Espero que os bros. tenham sido bem pagos.
TABACARIA Em 2004, em França, um maço de tabaco vai custar cerca de cinco euros, mais 50 por cento do que há um ano. É evidente que isto é dinheiro em caixa para tapar o défice público. Porém, há aqui um encorajamento aos fumadores para deixar o vício, um objectivo meritório do governo francês aplaudido pelos especialistas e pela oposição. Toda? Não! Os oportunistas da extrema-direita do Le Pen estão a colar-se à polémica para ganhar eleitorado. É que os vendedores de tabaco não estão de acordo - manifestam-se hoje em Paris - com os sucessivos aumentos de preço e queixam-se da súbita descida das receitas. Muitos receiam ter de fechar e aqueles que estão junto às fronteiras desesperam porque os clientes vão comprar mais barato ali ao lado. E alertam para o aumento do contrabando. Uma sondagem publicada hoje mostra que a maioria dos franceses está ao lado destes profissionais. O cenário completa-se com as eleições regionais no horizonte e as vozes do próprio partido do governo (UMP) a temer as consequências desta medida, tendo em conta a importância do "líder de opinião" que é o senhor da tabacaria. Pronto, o governo lá anuncia o congelamento dos impostos para este sector durante quatro anos, promete subsídios para os mais afectados e reforça as medidas de segurança contra os assaltos aos depósitos de tabaco. Mas parece que não chega.
A propósito, alguém tem um cigarrinho para rematar o gozo de um observador não-fumador?
A propósito, alguém tem um cigarrinho para rematar o gozo de um observador não-fumador?
domingo, novembro 23
ESTRANGEIRADOS O Belo apanhou-nos bem. O sub-título do blogue é capcioso. Mas ele percebe que daqui, a mais de 1.500 km, a perspectiva é a de um astronauta a olhar para a Terra: Portugal é ainda mais pequenino. Paris está no centro da Europa e do Mundo. Todas as dimensões mudam e é impossível não ficar maravilhado com a Civilização. Mas até que ponto não estão aqui ampliados todos os defeitos do nosso rectângulozinho ajardinado, à beira mar plantado?
JOÃO FIADEIRO E VERA MANTEIRO no Teatro da Bastilha para apresentar dois solos antigos cada um. No mesmo dia, mas cada um apresenta o seu espectáculo. Já conhecia o Fiadeiro de outra passagem por aqui, mas foi a primeira vez que vi a Vera. Fiquei dividido. Gostei mais dele no primeiro dia e dela no segundo. Penso que os franceses também. De qualquer modo, foi um pouco de Civilização neste fim do mundo.
DOMINGO Hoje esteve realmente um dia bonito. Digno de um verdadeiro domingo. Como estava sol, o Jardin des Plantes, um grande e belíssimo jardim que fica mesmo ao lado de minha casa, encheu-se de famílias ansiosas por aproveitar estes momentos, antes que entremos no túnel de nuvens e chuva até meados de Março. Nestes dias - tal como nos jogos de futebol no antigo Estádio da Luz - a polícia fecha os olhos aos carros estacionados nos passeios. Confesso que me irrita menos em Paris.
AGRADECIMENTOS. Além do Barnabé, o Terras do Nunca também fez uma cortez referência à nossa página. Juntos, estes senhores são responsáveis por quase todas as visitas que nos fizeram nestes primeiros dias de vida (à excepção de alguém que veio directamente desta estranha morada. Quem será?). Finalmente, o André, da Ponte, também ele estrangeirado, enviou-nos uma encorajadora mensagem de felicitações. Isto quer dizer que na minha curta lista dos cinco blogs favoritos à esquerda, três já nos conhecem. For the record, fica só a faltar o amigo José Mário e o Ivan, que não conheço pessoalmente mas que gostei de reencontrar na Net, quanto mais não seja para recordar as horas que passei a discutir as palavras dele nas salas de aula. Espero, sinceramente, que os «cinco magníficos» que elegi à direita também passem por cá. A primeira pint pago eu.
CIVILIZAÇÃO. Num simpático post em que fez a nossa apresentação, o André Belo, do Barnabé, diz que tentará perceber se o sub-título que escolhemos, «Diários do mundo civilizado», é uma forma de ironia. A resposta não é fácil. Quando qualquer café cagado me pede 450 paus por uma bica miserável e 1500 por um maçito de Camel poderei dizer que estou num país civilizado? Obviamente que não. Quando o barman se recusa a servir-me outro whisky só porque já passou das três da manhã poderei dizer que vivo num clima de urbanidade? Também não me parece. Tirando estas excepções (e a sua própria enumeração, como é evidente) não há ponta de ironia nas palavras. Para mim, é de facto o mundo civilizado. Não só «diferente» dos outros, mas «melhor» que os outros.
RADAR KADHAFI Um tractor a 120 km/hora numa auto-estrada. Em França, os agricultores já não querem Land-Rovers. Ná. Preferem "kitar" as velhas máquinas de trabalho: põem-lhes uns aelerons, dois tubos de escape, uns faróis roxos e pintam umas chamas de lado. "There goes Ezy, Ezy Ryder/Ridin down the highway of desire" (Jimi Hendrix, "Ezy Ryder", álbum The Cry of Love, 1971).
Em termos de engenharia orçamental, os franceses não se ficam atrás de ninguém. Três semanas depois da instalação de 17 radares em locais estratégicos já lá cantam 40 mil infracções por excesso de velocidade. As reclamações contam-se por uma vintena de mãos. Ora somem-se pelo menos 90 euros por cada multa e pensem no jeitinho que isto dava à Manuela Ferreira Leite. Agora multiplique-se por mais mil radares previstos até 2005. Até dá voltas à cabeça.
Mas, apesar de tudo, estes tipos até têm (algum) sentido de humor: no dia da inauguração, os dois ministros da tutela, o do Interior e o dos Transportes, foram "controlados" por um jornal e apanhados acima do limite permitido. Vamos ver se lhes saiem as amêndoas.
Em termos de engenharia orçamental, os franceses não se ficam atrás de ninguém. Três semanas depois da instalação de 17 radares em locais estratégicos já lá cantam 40 mil infracções por excesso de velocidade. As reclamações contam-se por uma vintena de mãos. Ora somem-se pelo menos 90 euros por cada multa e pensem no jeitinho que isto dava à Manuela Ferreira Leite. Agora multiplique-se por mais mil radares previstos até 2005. Até dá voltas à cabeça.
Mas, apesar de tudo, estes tipos até têm (algum) sentido de humor: no dia da inauguração, os dois ministros da tutela, o do Interior e o dos Transportes, foram "controlados" por um jornal e apanhados acima do limite permitido. Vamos ver se lhes saiem as amêndoas.
sábado, novembro 22
PRAXES. Como todas as confrarias pretensamente intelectuais, apercebo-me agora (tarde, portanto) que a blogosfera também tem o seu rito iniciático. Chama-se HTML e quem nunca ouviu falar no assunto fica aqui vivamente aconselhado a permanecer nesse estado de saudável ignorância. Eu, que até achava que ia gostar desta brincadeira, trocava já o esforço por dois passeios nos labirintos da Regaleira ou por qualquer exame canónico. Mal or mal, sempre arranjava umas cunhas.
sexta-feira, novembro 21
REPARO. Dizem-me que há uma «ética bloguística» que obriga caloiros, como nós, a apresentar as prosas a alguns fellows bloggers. Se assim é, desculpem o atraso mas já estamos a tratar do assunto. Outra questão de ética, agora mais pessoal, tem que ver com o post anterior e o site do professor Carrilho. Não fiz a devida referência: descobri-o neste blog. Um dos melhores, se querem a minha opinião.
CARRILHOMANIA. Primeiro, a confissão: durante alguns anos admirei o trabalho académico do professor Carrilho. Calma, calma... eu sei que ele é tudo isso, mas deixem-me explicar! O homem era o único português que se dedicava, de uma forma séria, ao estudo dos autores pragmáticos americanos. E aqui, acredite quem quiser, está a chave da convergência entre a produtividade protestante e o espírito do sentimentalismo latino. Adiante. Só lhe conheci a cara quando o excelso professor se juntou ao primeiro governo de Guterres que, como se recordarão os mais novos, liderava o único partido português em 1995 (entretanto também já extinto). A partir daí foi o que se viu. A arrogância e a vaidade, em Carrilho, não são defeitos, são genes. Nem vale a pena insisitir no que toda a gente sabe, mas vale a pena ver isto. Foi-se a noção do ridículo! É Carrilho frente ao espelho perguntando se há mente mais brilhante que a dele. Com os «meus» melhores textos, as «minhas» melhores intervenções, o «meu» currículo genial e, tristeza das tristezas, as «minhas» melhores poses - eu a ler, eu com o lápis na boca, eu na biblioteca, eu com um ar compenetrado... eu, intelectual. Agora perguntam-me vocês: mas se tu emigraste, porque é que ainda te dás ao trabalho de ver estas merdas? Não sei...
SELVAGENS Afinal os franceses têm razão: o Le Parisen, jornal equivalente ao Correio da Manhã (mas aquele tira 355 316 exemplares por dia) revela que o árbitro inglês do França-Portugal em sub-21 disse antes do jogo que ia fazer tudo para eliminar os franceses. Resultado: três amarelos e um vermelho para o goleador Cissé. Claro, os jogadores portugueses, que não são estúpidos, foram-se ao ar! Conhecidos pelo seu fair-play, ficaram fulos quando souberam da marosca e desataram a partir os balneários só de pensar nos estragos que aquilo ia causar à sua reputação. Selvagens, sim, mas com bons motivos! No final, o seleccionador francês ficou extremamente irritado. Ele também não suporta injustiças.
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