quinta-feira, novembro 20

TELEJORNAL. Há dias, depois de tentar explicar a alma estrangeira o significado da palavra saudade (o típico desbloqueador de conversa do emigra), a dita alma perguntou-me se era isso que eu sentia do meu país. «Não». Porquê? Porque tinha acabado de ver o telejornal. E sempre que vejo o telejornal da terra perco toda a saudade do que quer que seja. Aconteceu hoje. Vejo um taxista lisboeta responder alarvemente à jornalista da RTP: «vêm chatear um gajo por causa de tirar dois euros??» Depois vejo o balneário por onde passou a nossa ilustre selecção sub-mentecaptos. E pronto... Não fossem os dirigentes da federação a divertir-me e, juro, nunca mais veria o telejornal.

quarta-feira, novembro 19

ETA E GUANTANAMO. Lembro-me de ouvir o primeiro-ministro espanhol, há muito tempo - não sei quando, mas numa entrevista que se seguiu a mais uma barbárie da ETA -, explicar porque não entrava em negociações com as facções radicais dos separatistas bascos: «Não é possível conversar com terroristas. Têm uma linguagem diferente. Não nos iam perceber a nós, nem nós a eles». Grande Aznar. Gostei do argumento. Quem acha que é justo matar e espalhar o terror para fazer vingar ideias próprias tem, de facto, uma gramática de vida que não se compadece com o nosso respeito. Lembrei-me disto quando li o editorial de hoje do Independent (infelizmente, o acesso online paga-se). Todinho dedicado a Guantanamo. Ou, como diz o jornal inglês, à razão porque não lhe podemos dar as boas-vindas, sr.Bush. Grande Independent. Enquanto houver uma prisão onde os presos não têm direito a advogado, não podem ver um familiar, não são acusados de nada, não têm sentença nem prazo de libertação, onde há suicídios e tentivas de suicí­dio a rodos, onde, como suspeitamos todos, há tortura... enquanto houver isto tudo, é impossível perceber a linguagem do «sr.presidente».
CAPITAL DO CINEMA Fechou na avenue des Gobelins, no 13ème arrondissement de Paris, um cinema de duas salas, cujo edifício, um antigo teatro, tem a especificidade de ter uma fachada da autoria de Auguste Rodin. Não ia ali frequentemente, mas desagradou-me perder uma alternativa a dez minutos a pé de casa. O som e a imagem eram decentes e alguns filmes ainda ainda resistiam na sua versão original legendada, o que é raro. Para compensar, a autarquia comprou o Louxor, com fachada egípcia, mas vai demorar alguns anos até iniciar a programação dedicada ao cinema do sul. Enfim, restam-me 375 salas no resto da cidade, mais a Cinemateca, o Fórum das Imagens, o Centro Pompidou...

terça-feira, novembro 18

SONDAGENS. O Guardian conseguiu provar hoje aquilo que parecia impossí­vel. Quando o país inteiro, senão o mundo inteiro, julgava que os ingleses estavam muito chateados com o seu primeiro-ministro e odiavam o presidente americano, uma sondagem do prestigiado jornal veio «provar» exactamente o contrário. Ou seja, que, afinal, a maior parte dos ingleses continua a apoiar a guerra, gosta muito de Blair e, se pudesse, até dava duas beijocas no presidente americano. Há um dado, no entanto, que faz com que esta sondagem me dê comichão: a pergunta. Depois de ouvir as televisões citarem o inquérito e dizerem que «mais de 60 por cento dos ingleses apoiam os Estados Unidos incondicionalmente» [Sky News] fiquei tão surpreendido que fui ler o jornal. Fiquei então a perceber que, para chegar a esta conclusão, o jornal deu duas hipóteses às cobaias: A) «De uma forma geral, os Estados Unidos são uma força do bem e não do mal no mundo»; ou B) «Os Estados Unidos são o Império do Mal no mundo». De surpreendente, a resposta passou a lógica.
MICKEY Faz 75 anos. No ano passado fez 74 anos. No próximo faz 76 anos. É um desenho animado. É um rato. Não tem filhos, tem uma namorada igual a ele, mas com saia e laço na cabeça. É uma história que se pode colar todos os anos nos jornais sem mudar uma vírgula. O Público dá-lhe a primeira página hoje. Infelizmente, no mundo civilizado também é notícia.

segunda-feira, novembro 17

TV GENERATION Uma das coisas das quais não tenho saudades. Quando vim, o tempo passado sentado no sofá estava já num plano muito inclinado. Estava farto. E no entanto adoro: encontro sempre algo com interesse ou suficientemente lúdico para me entreter durante longas horas. O problema é esse: fica uma sensação desagradável de inutilidade e aumentam os remorsos por ler cada vez menos. Quando aterrei em Paris descobri o maravilhoso mundo das salas de cinema "art et essai" e pensei que nunca mais precisaria de uma. Pensei com algum gozo que me ia transformar naquelas pessoas estranhas que não usam sequer para suporte de bibelots. Hélas. Voltei. Perco menos tempo - mas ainda assim precioso - a ver barbaridades. Com a agravante de os programas serem piores e as séries americanas serem dobradas. É mais forte do que eu.
CHUVA. Cai bestialmente. Fecha-nos dentro. Esconde a gente. Faz o frio mais frio. Torna os polícias que esperam a comissão de festas americana ainda mais agressivos. Molha tudo: as bandeiras, lá em cima; os pés, cá em baixo. Estraga a cidade e traz um vírus que me destrói o computador. Irrita-me. Aqui já é Inverno, companheiro.
FOLHAS Caíram. As que ainda restavam nas árvores do jardim do prédio onde moro foram-se completamente abaixo com a chuvada que caiu ontem durante todo o dia. Tenho pena, porque elas estavam tão amarelas que era um gosto vê-las douradas a meio da tarde, quando o sol consegue furar os telhados até ao cimo do castanheiro que domina o pátio entre os quatro prédios do "immeuble". Desta vez não tive aquela sensação de caminhar sobre caracóis porque estavam molhadas. Aqui já é Outono.

quinta-feira, novembro 13

CABALAS Na fila para os bilhetes da Ópera começo a desesperar com o gentleman postado à minha frente. A coisa até estava a correr bem quando o cavalheiro teve a distinta lata de atrasar o mundo inteiro pedindo para consultar a «política de privacidade» do teatro. Assim. Sem mais nem menos. A «política de privacidade»! Só para poder entregar os dados do cartão de crédito «em segurança», dizia ele. Em bom inglês, uma paneleirice. Mas o pior veio depois: enquanto eu esperava que a menina do guichet levantasse o trombil e fizesse aquele ar de enfado tipicamente luso (qualquer coisa entre a Dona Júlia do 1º bairro fiscal da Cruz Quebrada e a Dona Irene do posto de Correios da Almirante Reis), a infame senhora resolve alinhar na conspiração burocrática. Tudo para me lixar a vida, obviamente. E nisto, com um insuportável sorriso, aparece com uma folha A4 a dar todas as explicações ao ilustre senhor. Não contente, a personagem leu a folha atentamente, acenou que não com a cabeça, pediu o cartão de volta e pagou com dinheiro. Eu ainda estava confuso com aqueles salamaleques todos quando o tuga que me acompanhava fez luz sobre o assunto: «Tá visto, mais um traficante de droga é o que é». Há sempre uma cabala à  medida da nossa humilhação.
SILOS Ontem vi um programa educativo na TF1 sobre como é gasto o dinheiro dos contribuintes e mostraram alguns exemplos de desperdício de dinheiros públicos. Claro que esses são os mais interessantes - fazer as contas a quanto custa o fardamento dos bombeiros e polícias pode ser chocante mas é compreensível (até à parte em que, num acampamento de bombeiros, um desfile de fardas acaba em sessão de strip-tease à la Full Mounty). Bem, o brinde da noite foi um parque de estacionamento daqueles em altura: parece que ano longínquo de 1986, os autarcas de Montpellier resolveram arranjar um esquema em que transformavam uma parte do edifício em abrigo nuclear, com portas blindadas, filtros de ar, água, etc. Lembrem-se, foi no mesmo ano de Tchernobyl, andava tudo em alvoroço a procurar máscaras na mercearia e a encher a despensa em casa com enlatados de comida para o cão. Três milhões de euros e 17 anos depois, aquilo está cheio de rachas por causa da vibração dos carros, e afinal, para selar, é preciso tirar umas dezenas de carros estacionados. Operação para coisa de vinte minutos, ao fim dos quais só restam umas pessoas do tamanho de barbies. Resultado: um monumento aos visionários. Já estou a ver o Santana a ter ideias.